Rui Tavares alerta para risco de se perder a democracia sem se perceber
As reflexões do também escritor surgem a propósito do seu mais recente livro, "Como se perde uma República", que será editado pela Tinta-da-China e que o autor espera conseguir publicar ainda neste mês.
Neste ensaio, Rui Tavares analisa os últimos meses da Primeira República portuguesa (1910-1926), reconstituindo o processo que levou ao golpe de 28 de maio de 1926 e questionando algumas das explicações tradicionais sobre o fim do regime democrático.
Rui Tavares acompanha cerca de 800 dias, entre novembro de 1924 e fevereiro de 1927, para perceber não porque caiu a 1.ª República, mas como foi viver esse processo.
Por isso, procurou antes reconstruir o quotidiano dos últimos anos do regime, desde o que se ouvia e cantava, até às histórias que ocupavam os jornais, passando pelas conversas dos portugueses, para perceber como se vivia enquanto a República caminhava para o seu fim.
"De certa forma, eu estou a escrever este [livro] para não escrever o outro", afirmou Rui Tavares, em entrevista à agência Lusa, explicando que "o outro" seria um livro sobre como se perde uma democracia.
Para o historiador e fundador do partido Livre, existe hoje uma ideia efabulada sobre o que significa uma democracia estar em risco, como se a chegada de uma ditadura fosse imediatamente reconhecível por quem a vive.
"O 'como' é absolutamente fascinante, porque nos aproxima um bocadinho daquilo que nós estamos a viver agora, e perceber que a gente pode estar preocupado com a democracia estar em risco - e sentimos todos que a democracia está em risco -, mas nós temos uma ideia um bocadinho fantasiosa do que é que é a democracia estar em risco", afirmou.
"Nós achamos que quando vier aí uma ditadura, que a televisão passa a estar a preto e branco", ironizou, lembrando que nos "loucos anos 1920" também não foi assim, havia esplanadas, cafés, cabarés, era a idade do jazz, Charleston e do Foxtrot, portanto: "Eles eram como nós somos".
Mesmo depois do golpe militar de 28 de maio de 1926, os portugueses ainda não sabiam que a República tinha acabado e encararam inicialmente o sucedido como mais um dos vários golpes que tinha marcado o regime.
"Nós também, quando acabar a democracia, no dia em que acabar, não sabemos exatamente se é naquele dia. Vamos continuar a dizer: 'Não, isto não é muito grave'", afirmou.
Aqui, Rui Tavares aponta responsabilidades também aos órgãos de comunicação social, acusando jornalistas e diretores de contribuírem para transformar o crescimento da extrema-direita num espetáculo que gera audiências.
"Nós estamos distraídos, nós somos irresponsáveis, os seus colegas, diretores de informação, estão divertidíssimos com isto que está a acontecer, porque dá audiências, e portanto toda a gente fica nisto", criticou.
O deputado à Assembleia da República evocou os exemplos de Marine Le Pen, em França, da Alternativa para a Alemanha (AfD) e de André Ventura, em Portugal, condenando a exposição mediática dada ao presidente do Chega.
"Quando isto se lixar tudo, e houver colegas meus a escrever sobre o 'porque', vai haver muita gente que vai ter que fazer a sua revisão de consciência e perceber: foi porque fomos irresponsáveis, foi porque fomos distraídos, foi porque não estivemos à altura das responsabilidades", afirmou.
Também o parlamento vai ter de fazer umas "revisões de consciência", porque "aquilo parece um circo e, infelizmente, lá dentro às vezes ainda é pior, e é uma coisa que me entristece", considerou.
Este seu olhar sobre o "como" se perde uma República levou-o igualmente a contestar ideias que considera terem ficado associadas ao golpe de 28 de maio, entre elas a de que a ditadura militar pôs termo ao caos da 1.ª República: "Ideia errada. O caos continuou, deixou de ser um caos civil, passou a ser um caos militar".
Outro "mito" que Rui Tavares contesta é o de que os portugueses, cansados da instabilidade republicana, aceitaram sem resistência a instalação da ditadura: "Mentira, o povo resistiu. […] Quando começaram a perceber que não ia voltar para trás, as pessoas começaram-se a revoltar".
Segundo o historiador, as promessas iniciais dos militares de que o parlamento não seria encerrado e não haveria censura depressa foram abandonadas, levando progressivamente os portugueses a perceber que não estavam perante mais um golpe passageiro.
"Há promessas que duram pouquíssimo. O parlamento fecha logo a 31 de maio e não reabre. Depois, a censura começa a ser introduzida e lá para outubro, novembro é uma censura a sério", recordou.
A resistência materializou-se nas revoltas de fevereiro de 1927 no Porto e as pessoas foram "massacradas", a "artilharia foi usada e morreram cerca de 80 pessoas" e ficaram feridas centenas de outras, assinalou, considerando que foi "um grande massacre para uma história como a portuguesa".
Mais tarde, "se calhar demasiado tarde", o povo de Lisboa levantou-se também e o resultado foi o mesmo, portanto "aí a ditadura mostrou do que era capaz" e "aí o pessoal percebeu: isto é a sério, isto é para durar", afirmou.
"Hoje em dia não há ideia, porque nós não temos placas a falar disto. Uma das minhas vontades como político é que em fevereiro de [20]27 nós, por favor, como país, celebremos as pessoas que no Porto saíram à rua para lutar contra a ditadura", defendeu.
O deputado considera que, apesar de ter durado apenas 16 anos, a 1.ª República deixou marcas profundas na sociedade portuguesa, desde a bandeira e o hino aos valores que associa à liberdade, igualdade e mobilidade social.
A este propósito, Rui Tavares defendeu a importância de a esquerda e os democratas não deixarem que a bandeira portuguesa, que considera uma das conquistas simbólicas da República, seja apropriada por outros setores políticos.
"A esquerda deve perceber que esta bandeira é a nossa bandeira, é a bandeira republicana. Não deve nunca deixar que, como noutros países, no Brasil e por aí afora, onde também é a bandeira republicana, ela seja roubada por outros", afirmou, contrapondo-a às cores e símbolos adotados por setores que classificou como "fascistóides", alguns dos quais, acrescentou, são monárquicos e "monárquicos miguelistas".
"Eu gosto muito dela [a atual República] e quero que dure muitos anos, quero que seja a que dura mais anos de todas, já ultrapassou o Estado Novo e espero que esta Constituição venha a ultrapassar mesmo a Carta Constitucional e que seja a mais longeva, e temos que lutar por isso, porque não está garantido".
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