Lucas Cândido Fumba: “Contar Angola com os próprios olhos”

Conheça Lucas Cândido Fumba, fotógrafo, realizador audiovisual e empreendedor criativo angolano, e a sua visão sobre storytelling, criatividade e o audiovisual em Angola.

Setembro 5, 2026 - 11:29
Setembro 5, 2026 - 12:37
 0  10
Lucas Cândido Fumba: “Contar Angola com os próprios olhos”

Lucas Cândido Fumba: contar histórias, criar impacto e sobreviver ao mercado criativo

Há quem veja uma câmera apenas como uma ferramenta. Para Lucas Cândido Fumba, ela é muito mais do que isso: é uma forma de observar, questionar, documentar e contar histórias que muitas vezes passam despercebidas.

Fotógrafo profissional, realizador audiovisual e empreendedor criativo angolano, Lucas construiu, ao longo de mais de seis anos de experiência no audiovisual, um percurso marcado por uma abordagem humana e documental. O seu trabalho procura aproximar a imagem da realidade e transformar acontecimentos, pessoas e lugares em narrativas capazes de provocar reflexão.

À frente da Wawera Filmes e como cofundador da Nzinga Comunicação, Imagem e Estratégia, Lucas atua na interseção entre criatividade, comunicação, publicidade e posicionamento de marcas.

Entre os seus projetos de maior destaque está “Luanda Sem Filtros”, uma série documental independente que procura revelar diferentes rostos da capital angolana através das histórias, desafios, criatividade, força e dignidade das pessoas que vivem nas suas ruas, mercados e bairros.

Nesta edição da Moosala Lumièr, Lucas Cândido Fumba é o nosso Rosto do Mês.

Conversámos com o jovem criativo sobre a sua trajetória, o poder do storytelling, os desafios de trabalhar no mercado audiovisual angolano, a relação entre criatividade e negócio e aquilo que ainda precisa mudar na contratação de profissionais criativos em Angola.

Quem é o Lucas Cândido Fumba por detrás da câmera?

LUCAS CÂNDIDO FUMBA: Sou um profissional apaixonado pela comunicação através da imagem. Sou fotógrafo, realizador audiovisual e empreendedor criativo. Ao longo dos anos, fui percebendo que o meu trabalho não se resume apenas a produzir imagens bonitas, mas principalmente a contar histórias, transmitir sentimentos e criar impacto.

Acredito muito no poder da imagem para documentar a nossa realidade, valorizar a nossa cultura e também provocar mudanças. 

Quando percebeu que o audiovisual poderia ser mais do que uma profissão e tornar-se uma missão?

LUCAS: Foi um processo. Quanto mais eu trabalhava, mais percebia que existiam muitas histórias à nossa volta que não estavam a ser contadas.

Angola tem pessoas extraordinárias, realidades muito fortes, culturas, talentos e desafios que merecem ser vistos. Comecei a entender que a câmera poderia ser uma ferramenta para aproximar essas realidades do público.

Foi aí que comecei a olhar para o audiovisual não apenas como trabalho, mas como uma responsabilidade.

O seu trabalho é muito associado a uma abordagem humana e documental. O que procura transmitir através das suas imagens?

LUCAS: Procuro transmitir verdade.

Não quero apenas mostrar aquilo que é bonito ou aquilo que funciona bem para as redes sociais. Quero mostrar pessoas, emoções, dificuldades, sonhos, conquistas e contradições.

Acredito que uma boa imagem não é necessariamente aquela que é perfeita tecnicamente. É aquela que consegue fazer alguém sentir alguma coisa.

Fala-se muito sobre storytelling atualmente. Para si, o que significa realmente contar uma boa história?

LUCAS: Storytelling não é simplesmente contar uma história. É saber encontrar significado dentro dela.

Uma boa história precisa de verdade, contexto, emoção e propósito. Quando conseguimos juntar esses elementos, deixamos de produzir apenas conteúdo e começamos a criar uma narrativa.

E acredito que Angola tem histórias suficientes para produzir conteúdos capazes de chegar muito além das nossas fronteiras.

O mercado criativo angolano está preparado para reconhecer e contratar profissionais pelo valor do seu trabalho?

LUCAS: Ainda temos muito para evoluir.

Existe talento em Angola. Temos fotógrafos, videomakers, designers, realizadores, produtores, escritores, músicos e muitos outros profissionais extremamente capazes.

O problema é que ainda existe, em muitos casos, uma dificuldade em compreender o verdadeiro valor do trabalho criativo.

Muitas vezes, a contratação é feita apenas com base no preço e não na capacidade de execução, experiência, criatividade ou impacto que aquele profissional pode gerar.

Precisamos começar a olhar para o criativo como um parceiro estratégico e não apenas como alguém contratado para executar uma tarefa.

Então, na sua opinião, o maior desafio não é a falta de profissionais, mas a forma como o mercado os valoriza?

LUCAS: Exatamente.

Precisamos de uma mudança de mentalidade dos dois lados.

As empresas precisam compreender que comunicação, imagem e conteúdo podem influenciar diretamente a forma como uma marca é percebida.

Ao mesmo tempo, os próprios profissionais criativos precisam profissionalizar cada vez mais os seus negócios, saber apresentar propostas, definir preços, cumprir prazos, construir portefólio e entender o mercado.

Talento sozinho não é suficiente. É preciso transformar talento em valor.

E como é ser jovem e, ao mesmo tempo, empreendedor num mercado tão competitivo?

LUCAS: É desafiante.

Empreender na indústria criativa exige muito mais do que saber fazer um bom trabalho. É necessário aprender sobre gestão, relacionamento com clientes, vendas, marketing, estratégia, liderança e muitas outras áreas.

Existem dias em que temos de ser criativos, produtores, gestores e até vendedores ao mesmo tempo.

Mas também é exatamente isso que torna o percurso interessante. Cada desafio acaba por ensinar alguma coisa.

A Wawera Filmes já acumula mais de 10 anos de experiência e mais de 2.000 projetos realizados. O que esses números representam para si?

LUCAS: Representam experiência, mas também responsabilidade.

Mais de 2.000 projetos significam milhares de histórias, clientes, desafios e aprendizagens.

O mais importante não é apenas o número. É aquilo que conseguimos construir ao longo desse percurso e a capacidade de continuar a evoluir.

O audiovisual muda constantemente e nós também precisamos mudar com ele.

Como nasceu o projeto “Luanda Sem Filtros”?

LUCAS: Nasceu da vontade de mostrar uma Luanda diferente.

Vivemos numa cidade extremamente dinâmica, mas muitas vezes vemos apenas uma parte dela. Existe uma Luanda que está nos bairros, nos mercados, nas ruas, nos pequenos negócios e nas pessoas que todos os dias fazem a cidade acontecer.

“Luanda Sem Filtros” nasceu para olhar para essa realidade de forma mais humana, autêntica e cinematográfica.

O nome “Luanda Sem Filtros” parece carregar uma mensagem forte. O que significa retirar os filtros?

LUCAS: Significa aproximarmo-nos da realidade.

Não significa mostrar apenas dificuldades. Significa mostrar Luanda como ela é: com os seus problemas, mas também com a sua criatividade, força, cultura, empreendedorismo, beleza e capacidade de transformação.

Queremos mostrar uma cidade que muitas vezes não aparece nas narrativas tradicionais.

Que Luanda o público vai encontrar nesse projeto?

LUCAS: Vai encontrar pessoas.

E acho que essa é a palavra principal.

Vai encontrar histórias reais, personagens diferentes, lugares, culturas, desafios e sonhos.

Queremos que quem assistir consiga reconhecer algum pedaço de si naquela narrativa.

O projeto também pretende aproximar cultura, empresas e sociedade. Porquê essa ligação?

LUCAS: Porque acredito que projetos culturais também podem gerar valor para o setor empresarial.

Uma marca pode apoiar cultura, cinema ou comunicação e, ao mesmo tempo, fortalecer o seu posicionamento e criar uma ligação mais verdadeira com o público.

O “Luanda Sem Filtros” pretende criar exatamente essa ponte: cultura, comunicação, empresas e sociedade a encontrarem-se num mesmo espaço.

Qual é o papel da Nzinga Comunicação, Imagem e Estratégia nesse percurso?

LUCAS: A Nzinga surge com uma visão estratégica.

Não queremos apenas produzir comunicação. Queremos ajudar marcas, empresas, artistas e empreendedores a perceberem como podem posicionar-se melhor.

A comunicação precisa ter estratégia. Uma boa imagem precisa estar ligada a uma identidade, a uma mensagem e a um objetivo.

É essa combinação entre criatividade e estratégia que procuramos desenvolver.

Que erro as marcas ainda cometem quando contratam profissionais criativos?

LUCAS: Um dos principais erros é tratar todos os projetos da mesma forma.

Uma fotografia para um produto, um filme institucional, uma campanha publicitária ou um documentário exigem abordagens completamente diferentes.

Outro erro é procurar sempre o orçamento mais baixo.

Nem sempre o profissional mais barato é a melhor escolha, assim como o mais caro também não é necessariamente o melhor. O importante é perceber o valor que aquele profissional pode entregar e se existe alinhamento entre o projeto e a sua experiência.

 

E o que os profissionais criativos precisam melhorar?

LUCAS: Precisamos profissionalizar mais o setor.

Precisamos deixar de pensar apenas como executores e começar a pensar como profissionais e empresários.

É importante ter contratos, propostas, portefólio, processos, organização financeira, capacidade de negociação e clareza sobre aquilo que estamos a entregar.

Criatividade é importante, mas profissionalismo sustenta a criatividade.

Se pudesse dar um conselho a um jovem angolano que está a começar no audiovisual, qual seria?

LUCAS: Começa.

Não esperes ter a câmera perfeita, o computador perfeito ou todas as condições ideais.

Começa com aquilo que tens e aprende continuamente.

Mas, ao mesmo tempo, não confundas começar pequeno com pensar pequeno.

Estuda, observa outros profissionais, cria portefólio, procura referências, experimenta e, principalmente, aprende a transformar aquilo que sabes fazer em valor.

Onde gostaria de ver a indústria criativa angolana daqui a dez anos?

LUCAS: Gostaria de ver uma indústria muito mais estruturada.

Uma indústria onde os profissionais sejam valorizados, onde existam mais produções nacionais, mais investimento privado, mais oportunidades para jovens e mais projetos capazes de atravessar fronteiras.

Temos talento. Precisamos criar estruturas e oportunidades para que esse talento consiga crescer.

O que ainda falta contar sobre Angola?

LUCAS: Muita coisa.

Angola é muito maior do que aquilo que normalmente aparece nas nossas telas.

Temos histórias de pessoas, bairros, províncias, culturas, negócios, tradições e novas gerações que precisam ser documentadas.

E talvez essa seja uma das grandes responsabilidades da nossa geração: contar a nossa própria história.

Que marca gostaria de deixar através do seu trabalho?

LUCAS: Gostaria de ser lembrado como alguém que contou histórias com verdade.

Alguém que utilizou a imagem para valorizar pessoas, cultura e a realidade angolana.

Se daqui a muitos anos alguém olhar para um trabalho meu e disser “isto ajudou-me a compreender um pouco melhor Angola”, já terá valido a pena.

 

O ROSTO POR TRÁS DA LENTE

Lucas Cândido Fumba representa uma geração de criativos angolanos que procura transformar talento em profissão, profissão em negócio e comunicação em impacto.

Entre a fotografia, o cinema, o empreendedorismo e a estratégia de comunicação, o jovem realizador encontrou na narrativa audiovisual uma forma de construir pontes entre pessoas, marcas e sociedade.

Com a Wawera Filmes, a Nzinga e projetos como “Luanda Sem Filtros”, Lucas procura não apenas produzir imagens, mas construir um arquivo contemporâneo de uma Angola que merece ser vista, compreendida e lembrada.

Lucas Cândido Fumba é o Rosto do Mês da Moosala Lumièr.

NOTA EDITORIAL

Esta entrevista integra a edição de setembro de 2026 da Moosala Lumièr, rubrica editorial da Moosala dedicada a destacar pessoas que inspiram, criam e contribuem para a transformação da sociedade.

O conteúdo foi organizado, editado e adaptado para o formato editorial da revista pela equipa editorial da Moosala Lumièr, preservando a essência, as ideias e a trajetória do entrevistado.

Ficha Técnica
Entrevistada: Lucas Cândido FumbaFotógrafo, realizador audiovisual e empreendedor criativo

Edição e Organização de Conteúdo: Equipa Editorial Moosala Lumièr

Edição da Capa: CRIZEM Agência Criativa
Categoria Exclusiva: Moosala Lumièr
Fonte: Moosala
Edição: Outubro 2026 - 03 

Nesta edição, a Moosala Lumièr coloca-o sob os holofotes não apenas pelo que já realizou, mas pela visão que representa: a de uma nova geração criativa que quer contar Angola com os seus próprios olhos.

Qual é a sua reação?

Gosto Gosto 0
Não gosto Não gosto 0
Amor Amor 0
Engraçado Engraçado 0
Zangado Zangado 0
Triste Triste 0
Wow Wow 0