Francisco Rodrigues dos Santos sai do CDS: "Deixo de ser militante"
O antigo presidente do CDS Francisco Rodrigues dos Santos deixou o partido, que acusa de seguir um debate político sob a influência crescente de discursos identitários, radicalizados e ultraconservadores, com "inquietante insensibilidade social".
"Deixo de ser militante do CDS. Continuo a ser democrata-cristão", escreve Francisco Rodrigues dos Santos, numa carta escrita ao presidente do partido, Nuno Melo, hoje revelada pelo jornal Público e à qual a agência Lusa teve acesso.
Na missiva de quatro páginas enviada ao atual presidente do CDS, Nuno Melo, Francisco Rodrigues dos Santos critica o caminho trilhado pela atual liderança do partido que dirigiu entre 2020 e 2022, lembrando que já não se reconhece nas escolhas que o CDS tem feito.
O antigo líder diz que continua "a ser democrata-cristão" mas "é mais acertado" hoje definir-se "como centrista" e, perante uma deslocação que considera "excessiva para a direita", sente "a necessidade de olhar com mais cuidado para valores tradicionalmente associados ao centro-esquerda democrático".
"Continuo a reconhecer-me na tradição humanista da democracia-cristã europeia e defendo um centro reformista, socialmente responsável e avesso à radicalização. Tenho, porém, sérias reservas quanto à vontade do CDS de ocupar esse espaço político. Compreendo o caminho que o partido escolheu, mas não tenho dúvidas sobre o lugar em que eu próprio me encontro, nem de que esse lugar deixou de ser compatível com a minha filiação no CDS", refere.
Rodrigues dos Santos considera que o debate político tem sido "progressivamente deslocado para a margem direita, sob a influência crescente de discursos identitários, de uma retórica radicalizada e de correntes ultraconservadoras e libertárias, frequentemente acompanhadas de uma inquietante insensibilidade social".
O ex-líder dos centristas escreve que olha para a dinâmica política atual como alimentadora de ressentimentos, classificando as pessoas "antes de as compreender" e dedicando-se a "apontar inimigos". Esse é o caminho que vê o CDS a trilhar, afastando-se para uma "orientação política" que diz não se sentir "capaz de subscrever".
"O CDS, a meu ver, acompanhou esse movimento, trilhando, precisamente, o caminho inverso do que eu procurei fazer durante a minha presidência. O centro-direita moderado, social e humanista que procurei defender enquanto o liderei foi perdendo espaço para uma orientação política que não me sinto capaz de subscrever", assinala.
O antigo presidente do CDS assinala que quando liderou o partido, tentou "situá-lo num espaço de moderação, responsabilidade e sensibilidade social, com uma ética conservadora, capaz de promover as necessárias mudanças, mas evitando as ruturas", e afastando-se das "novas direitas ultraliberais, populistas, e radicais que, entretanto, se instalavam no xadrez partidário".
"Entretanto, o país mudou, e eu também fui amadurecendo a minha leitura da sociedade. Nos últimos anos, livre das responsabilidades partidárias, pude estudar, conhecer outras realidades e olhar o mundo com maior liberdade e empatia. A experiência confirmou algumas das minhas convicções, levou-me a reconsiderar outras e ensinou-me a compreender melhor os princípios em que acredito", refere.
Francisco Rodrigues dos Santos foi eleito líder do CDS-PP em janeiro de 2020, aos 31 anos, sucedendo à antiga ministra Assunção Cristas.
Durante o seu mandato, o partido perdeu a representação na Assembleia da República, o que levou o antigo líder a demitir-se logo na noite eleitoral das legislativas de janeiro de 2022.
Antes de chegar à liderança do CDS-PP, Francisco Rodrigues dos Santos tinha sido presidente da Juventude Popular (JP) - estrutura que representa os jovens centristas - desde 2015.
Rodrigues dos Santos, conhecido como "Chicão", filiou-se na JP em 2007 e no partido em 2011, era Paulo Portas presidente dos centristas.
Anteriormente conhecido pelas suas posições conservadoras, Francisco Rodrigues dos Santos tem manifestado opiniões mais moderadas e disse numa entrevista recente que não se define como "uma pessoa de direita".
Em 2024, falando num painel de comentário televisivo enquanto ao mesmo tempo que decorria o 31.º Congresso do CDS-PP, o antigo líder admitiu desfiliar-se do partido, considerando que este se transformou "num clubinho privado de portas fechadas à renovação".
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