Da ação da PSP ao silêncio de Seguro e Montenegro: Que dizem os partidos?

Outubro 26, 2026 - 03:00
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Da ação da PSP ao silêncio de Seguro e Montenegro: Que dizem os partidos?

O fim de semana ficou marcado pelas manifestações pelo direito à habitação em várias cidades do país, mas manchado pela intervenção policial na madrugada de sábado para domingo nas acampadas do Rossio, em Lisboa, e da praça D. João I, no Porto. Das críticas às palavras de apoio à ação da PSP, os partidos exigiram explicações ao Governo e criticaram o silêncio do Presidente da República.

 

Tanto António José Seguro como Luís Montenegro estão longe dos holofotes há vários dias - e esse silêncio foi alvo de críticas este domingo, tanto entre políticos como nas ruas. 

O ruído político foi muito mas, do lado do Governo, apenas o ministro da Administração Interna e o porta-voz do PSD falaram ao país.

Por outro lado, Esquerda e Direita também olham de forma diferente para a intervenção da PSP nas manifestações - que tinham decorrido de forma pacífica ao longo do dia de sábado e voltaram às ruas no domingo, embora, desta feita, sem novas acampadas.

Os partidos de Esquerda criticaram a intervenção policial, pedindo esclarecimentos ao primeiro-ministro, Luís Montenegro, e a intervenção do Presidente da República, António José Seguro. O PSD, partido do Governo, e o Chega defenderam a atuação da polícia.

Montenegro "não pode, com silêncio, atirar polícias contra cidadãos"

O secretário-geral do Partido Socialista (PS) exigiu um "esclarecimento cabal" do primeiro-ministro sobre a resposta policial às manifestações da madrugada pelo direito à habitação, defendendo que a saída para o problema "é política, nunca policial".

"A saída para esta crise é política. O primeiro-ministro, Luís Montenegro, é o primeiro e principal responsável do Governo e tem de assumir a sua responsabilidade. Não pode, com o seu silêncio, continuar a atirar polícias contra cidadãos e cidadãos contra polícias", afirmou José Luís Carneiro numa conferência de imprensa convocada na sequência dos episódios de violência registados nas manifestações da noite passada.

Salientando que "qualquer restrição do direito de manifestação tem de obedecer aos princípios da necessidade, da adequação e da proporcionalidade", o secretário-geral dos socialistas reclamou "um esclarecimento cabal" de Montenegro sobre o que levou a um "uso da força" aparentemente "desproporcionado" por parte das forças policiais.

Considerando "incompreensível o silêncio do primeiro-ministro numa circunstância tão grave" como a vivida atualmente, José Luís Carneiro enfatizou que Montenegro "é o primeiro responsável pelo sistema de segurança interna".

Questionado pelos jornalistas sobre se considera que o Presidente da República (PR), António José Seguro, devia ter um papel mais interventivo nesta questão, Carneiro remeteu uma resposta para o próprio Chefe de Estado, afirmando apenas que o seu partido foi convidado pelo PR para uma reunião, na quinta-feira, "para abordar as questões da coesão e, entre elas, estarão naturalmente as questões da habitação".

"Solução não pode ser o Governo mandar a polícia bater nos manifestantes"

O vereador do PCP em Lisboa João Ferreira considerou que a solução para responder à "justa indignação" dos cidadãos aos problemas da habitação "não pode ser restringir o direito e a liberdade de manifestação consagrado na Constituição".

"O Governo está a anunciar medidas que, em lugar de resolver o problema, o agravam e isso não pode, se não gerar viva indignação. E essa indignação tem assumido formas muito diversas. Como digo, a manifestação de ontem [sábado] foi uma delas, tínhamos tido a semana passada outras manifestações em Lisboa e no Porto, nesta manifestação da CGTP, teremos na próxima semana manifestações que já estão anunciadas", disse João Ferreira, que esteve na manifestação que sábado desceu do Marquês do Pombal até ao Rossio.

"A solução tem mesmo que ser responder aos problemas da habitação e é aí que o Governo se tem que concentrar. Em não forçar a aprovação de uma lei das rendas com o apoio do Chega, da Iniciativa Liberal, que vai aumentar a instabilidade no mercado do arrendamento, que vai fazer subir os custos do acesso à habitação por via do arrendamento", afirmou.

Pureza diz que polícia "bateu a mando do Governo" e pede ação de Seguro

Já o coordenador do Bloco de Esquerda afirmou este domingo que a intervenção policial desta madrugada sobre os manifestantes pela habitação aconteceu "a mando do Governo" e considerou que o Presidente da República deve pronunciar-se sobre o que aconteceu.

"Luís Montenegro respondeu à força grande, democrática e pacífica das ruas com violência policial, batendo, perseguindo, encurralando. Toda a nossa solidariedade com quem foi agredido e perseguido nesta madrugada só por se ter manifestado pacificamente", afirmou José Manuel Pureza.

No encerramento da Cimeira Futuro em Comum, promovida pela Aliança de Esquerda Europeia, em Lisboa, o antigo deputado bloquista considerou que "a polícia bateu a mando do Governo de Luís Montenegro".

Primeiro-ministro "não ficou cego, nem mudo", mas "não entra em torneios"

Por sua vez, o porta-voz do PSD, Sebastião Bugalho, defendeu que existiu proporcionalidade na resposta policial às manifestações pelo direito à habitação e acusou o secretário-geral do PS de irresponsabilidade e hipocrisia.

Em declarações aos jornalistas transmitidas pelas televisões a partir de Aveiro, Sebastião Bugalho afirmou que o PSD recusa "uma falsa clivagem" entre a autoridade dos polícias e a liberdade de expressão dos manifestantes, dizendo que houve arremesso de objetos por parte dos segundos contra a polícia e a comunicação social.

"É importante transmitir da parte do PSD uma palavra de tranquilidade e serenidade. A polícia, na nossa perspetiva, atuou com proporcionalidade e no enquadramento legal que se presume que aconteça para proteger o direito à manifestação, que obviamente nós respeitamos. Mas têm de se respeitar as regras da manifestação e, a dado momento, isso não estava, infelizmente, a acontecer.

Em reação às críticas de José Luís Carneiro, que exigiu esclarecimentos ao primeiro-ministro, o porta-voz do PSD disse que Luís Montenegro "não entra em torneios de conferências de imprensa" com deputados ou líderes partidários.

"O primeiro-ministro não ficou nem cego, nem surdo, nem mudo na última semana", afirmou o também vice-presidente do PSD.

Livre espera "posição firme" de Seguro e vai pedir explicações ao Governo

O Livre instou, por seu lado, o Presidente da República, António José Seguro, a ter "uma posição firme" sobre as intervenções policiais nas acampadas pela habitação e indicou que vai voltar a pedir explicações ao Ministério da Administração Interna. 
 
Em várias publicações na rede social na rede social Bluesky, o porta-voz do Livre Jorge Pinto defendeu que "o que uma carga policial nunca poderá calar é a voz de um povo que legitimamente pede o direito a ter uma casa que consiga pagar" e considerou que o Governo e os partidos à direita "não conseguem ter resposta" para isso, pelo que o "bastão é a saída fácil".

"Quinta-feira, na reunião que teremos com o Presidente da República, iremos também insistir com António José Seguro para que tenha uma posição firme sobre o que aconteceu nas últimas semanas. O silêncio a que nos habituou o primeiro-ministro não pode ser o silêncio do Presidente da República", afirmou o deputado e ex-candidato presidencial.

"A polícia não tinha outro caminho se não fazer o que fez", diz Ventura

Tal como o PSD, o Chega defendeu a intervenção da polícia durante a madrugada sobre os manifestantes pela habitação, sustentando que "o Estado se não podia acobardar", e voltou a criticar o silêncio do primeiro-ministro, acusando-o de se esconder.

Num vídeo enviado aos jornalistas, André Ventura diz que a ação da polícia na última madrugada "para a reposição da ordem pública" não podia "deixar de acontecer".

"O país, os seus centros urbanos, não podem ficar à mercê da desobediência de um conjunto muito minoritário de vândalos e provocadores sobre os moradores, sobre as forças da ordem, sobre as instituições do país. A polícia não tinha outro caminho se não fazer o que fez, repor a legalidade e repor a ordem", defende.

IL diz que "repressão não é aceitável nem resolve nada"

A líder da Iniciativa Liberal considerou hoje que a resposta ao "falhanço nas políticas públicas de habitação" não pode passar pelo uso de "força repressiva sob a forma de cassetete", numa crítica à intervenção policial nas manifestações pela habitação.

Numa publicação na rede social X, Mariana Leitão escreveu que a "repressão não é aceitável nem resolve nada".

"A única solução de um Estado que falha em quase tudo, perante quem protesta o falhanço nas políticas públicas de habitação, não pode ser usar a sua força repressiva sob a forma de cassetete", defendeu.

PCP avisa Montenegro que não vai conseguir limitar direito à manifestação

O secretário-geral do PCP, Paulo Raimundo, avisou este domingo, no Porto, que o Governo de Montenegro não vai levar avante a limitação do direito à manifestação, classificando os atos que ocorreram de madrugada em Portugal de "violência", "arrogância" e "incapacidade".

"O Governo não pense que vai levar por diante a sua intenção de limitar o direito à manifestação. Está muito enganado relativamente a isso. Nem isso, nem vai destruir da questão central. A questão central é a resposta do que não dá ao problema da habitação", declarou Paulo Raimundo, secretário-geral do Partido Comunista Português (PCP).

"Arrogância e incapacidade. Incapacidade de resposta aos problemas da habitação(…). Estamos a falar da habitação, mas que é uma gotinha de água na situação global do país. Isso expressa-se também no aumento do custo de vida", observou o líder dos comunistas.

Os Verdes criticam "silêncio ensurdecedor" de Seguro

O Partido Ecologista Os Verdes (PEV) criticou o "silêncio ensurdecedor" do Presidente da República sobre a carga policial sobre "manifestantes pacíficos" pelo direito à habitação, que considera "inaceitável", ocorrida durante a madrugada em Lisboa e Porto.

"A carga policial a que, mais uma vez, se assistiu esta madrugada é inadmissível", pode ler-se numa da comissão executiva do PEV, salientando que o direito à manifestação "é um direito constitucionalmente consagrado".

Além disso, os Verdes criticaram o facto de que "perante a violência policial que tem limitado o direito à manifestação, não é compreensível que o Presidente da República, que jurou cumprir e fazer cumprir a Constituição, se mantenha em silêncio!".

"Esse silêncio, perante tão graves acontecimentos, torna-se ensurdecedor", acusam.

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