"Risco de Direita formar Governo com Chega pode pôr em causa Montenegro"
O ex-dirigente do Partido Socialista (PS) Vítor Ramalho alertou que o secretário-geral dos socialistas, José Luís Carneiro, "não tem alternativa" a não ser abster-se na votação do Orçamento do Estado para 2027, tendo em conta que, "se não fizer isso, o risco de a Direita formar Governo" com o Chega "é grande" e poderá, inclusive, "pôr em causa Montenegro".
"Ele fez muito bem. Se, porventura, o PS não fizer isso, o risco de a Direita formar Governo é grande. Em aliança com o Chega, sim, é grande. Porque, nessa altura, a própria Direita, que tem a vocação do poder pelo poder, poderá pôr em causa Montenegro. Essa hipótese é possível, inclusivamente a de apoio parlamentar, se não mesmo de integração no Governo. As sondagens dão um crescimento do PS, é verdade, mas também um crescimento do Chega. Esse crescimento do Chega, não tenho dúvidas, é feito muito à custa do PSD e, portanto, esta forma de o PSD se comportar também vai ser penalizada", explanou, em entrevista à Renascença.
O histórico socialista foi mais longe, tendo advertido que "o país não lhe perdoaria se ele votasse contra", já que, desde 2015, houve "cinco [eleições] em dez anos".
Vítor Ramalho reforçou, nessa linha, o apelo a que o PS faça uma "análise profunda" dos resultados que tem tido, "porque, se repararmos, nos últimos 10 anos houve uma alteração profundíssima na representatividade popular expressa na Assembleia da República", pautada por "um sério deslizamento do eleitorado para a Direita".
Na ótica do ex-secretário de Estado dos Governos de Mário Soares e António Guterres, "as causas internas têm a ver com o facto de os partidos de poder não estarem atentos ao pulsar da própria sociedade e à caracterização dos objetivos estratégicos que qualquer país deve ter", mas sim "à espuma dos dias".
"Isso não pode ser. Nunca na vida vi um general que perca duas batalhas seguidas, e duas fortes batalhas. Uma, com o PS a perder as eleições com maioria absoluta ao fim de dois anos de existência, e depois, logo a seguir, a colocar-se como terceiro partido em representação parlamentar na Assembleia", disse.
Pese embora o PS seja "um partido de Esquerda", Vítor Ramalho apontou que, "quando foi criada a geringonça, o partido não tinha dito aos eleitores que o ia fazer", razão pela qual "a dúvida pairou sempre e um dia tinha de vir ao de cima, com os resultados que o partido tem hoje e com a situação da Esquerda à nossa Esquerda completamente desarticulada".
"A possibilidade de o PS vir a ter um resultado com uma maioria confortável, ainda que não absoluta, é muito difícil no quadro atual. […] Mas o que os estudos de opinião dizem, até pela reconfiguração atual da Assembleia da República, é que será muito difícil a distância do primeiro em relação ao segundo ser muito significativa. E, se o PS quiser formar Governo sozinho, o que pode fazer, deve fazê-lo num quadro em que seja claro para a opinião pública que esta análise foi feita e que a reaproximação real do partido aos cidadãos envolveu também uma análise autocrítica dele próprio, sem temores", frisou.
Vítor Ramalho rejeitou, ainda assim, a formação de um "Governo de Bloco Central", que foi criado porque "o país estava na bancarrota total, não tinha dinheiro sequer para importar bens alimentares".
"Isso hoje não é possível, pela realidade da mudança que houve. O PSD é hoje um partido muito à Direita. Não é um partido social-democrata. Não significa que não haja pessoas e uma corrente forte social-democrata. Mas, em termos de pensamento estratégico, não é. E vive do equilíbrio sem ter norte, apoiando-se no CDS no poder, que não tem hoje uma representatividade significativa, mas negociando à Esquerda e à Direita como se os partidos fossem iguais. Não são. Não sendo possível, admito que a situação se possa alterar num quadro ainda mais complexo, se o PSD e o PS não fizerem esta análise profunda", vincou.
Quanto à prestação do Presidente da República, António José Seguro, o socialista indicou que o chefe de Estado "tem feito aquilo que é a característica dele, com esforço, com dedicação, muito ponderado, pensando nas coisas, fazendo discursos escritos para não ter qualquer deslize", além de estar a tentar evitar uma crise, "dando o seu contributo para isso de uma forma tendencialmente consensual".
"Espero que não haja nenhuma crise séria, porque é aí que, depois, o doutor António José Seguro, enquanto Presidente da República, marcará o seu mandato. Todos os Presidentes marcaram os seus mandatos nas crises", rematou.
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