Ana Catarina Mendes acusa Leitão Amaro de ceder ao Chega e promover medo

Outubro 18, 2026 - 09:00
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Ana Catarina Mendes acusa Leitão Amaro de ceder ao Chega e promover medo

A ex-ministra socialista com a tutela da imigração acusou hoje o seu sucessor, António Leitão Amaro (PSD), de ceder ao discurso extremista do Chega e de promover o medo em relação aos imigrantes em Portugal.

 

"Eu acho que a chegada de Luís Montenegro ao Governo e, em particular, a ação do ministro Leitão Amaro, permitiu aumentar um sentimento negativo sobre a imigração que nunca houve em Portugal", afirmou, em entrevista à Lusa, a eurodeputada Ana Catarina Mendes, antiga ministra dos Assuntos Parlamentares.

Em entrevista à Lusa sobre os três anos de criação da Agência para a Integração, Migrações e Asilo (AIMA), que se assinalam em 29 de outubro, Ana Catarina Mendes recordou que, durante anos, PS e PSD consensualizaram as políticas de migração.

Elogiou em particular o antigo ministro da Administração Interna social-democrata Miguel Macedo, que "foi o responsável pela transposição da diretiva do retorno" e "procurou criar consensos", sem "opções radicais ou extremadas".

Contudo, um acontecimento recente mudou a visão da política migratória do centro-direita: "O aparecimento de um partido extremista em Portugal, que usou a imigração para causar medo", o que tornou impossível aos governos socialistas de António Costa encontrar pontos de encontro com o PSD para a política de imigração.

A ex-governante recordou que os sociais-democratas "votaram contra a extinção do SEF" (Serviço de Estrangeiros e Fronteiras, que veio a dar lugar à AIMA), sem haver "uma tentativa sequer de perceber o que isto queria dizer" do ponto de vista da política migratória.

Para a ex-ministra, o PSD "renunciou à própria história" neste tema por medo de perder eleitorado: "Julgo que o medo de que um partido extremista tivesse mais votos do que o PSD" levou à construção desta ideia de que "os socialistas descontrolam a imigração", subscrevendo os discursos de André Ventura.

"Todos os relatórios internacionais saúdam a política de imigração de então", disse Ana Catarina Mendes, considerando por isso "que falta rigor e às vezes falta estudo sobre as matérias".

"Eu acho que nós hoje estamos confrontados com um mundo do imediato, do sensacionalismo, onde as perceções se tornam verdade, onde as redes sociais disseminam desinformação", salientou.

As sociedades lidam, "em termos mundiais, com uma agenda claramente contra a imigração e que encontrou na imigração o bode expiatório para o ressentimento, os males do mundo".

"A AIMA tem condições para ter orçamento próprio", deu lucro e "não faz política de integração porque o governo não sabe (…) ou não quer", acusou a ex-governante.

Ana Catarina Mendes lamentou o que classificou como uma "quebra de solidariedade europeia": "A primeira reação de 22 Estados-membros, que Portugal, felizmente, não subscreveu, a pedir suspensão de Schengen em Espanha" por causa dos incidentes em Ceuta, quando se trata de "uma fronteira externa da União Europeia", que é uma responsabilidade partilhada.

A eurodeputada criticou também o comportamento dos deputados do Partido Popular Europeu (PPE), que integra PSD e CDS, na aprovação do Regulamento do Retorno na UE, com o apoio da extrema-direita.

"Naquele dia, celebraram efusivamente, dizendo 'Vão para casa. Devolvam-nos aos seus países'", recordou a eurodeputada, que disse estar a lutar em Bruxelas para que "o projeto europeu continue a ser um projeto de solidariedade, de democracia e de liberdade".

Por isso, "as políticas de migração devem ser políticas olhadas com aquilo que é o rigor dos factos", resumiu.

Ana Catarina Mendes reconheceu no entanto que os serviços públicos têm de acompanhar o aumento da procura.

Por isso, a primeira das 34 lojas AIMA previstas foi aberta no Algarve, na loja do Cidadão, para "criar um caminho de integração documental".

"Nós, na altura, também fomos dizendo que não estava tudo bem e que era preciso reforçar os serviços públicos e isso estava interligado", porque as "coisas não se fazem por gavetas" e a imigração é "também uma política integrada" com várias áreas do governo, como a saúde ou a educação.

Defendeu por isso a necessidade de "serviços públicos para todos os cidadãos, sejam nacionais ou sejam estrangeiros, que estejam em Portugal".

"Sempre houve imigração" e "cabe aos governos gerir a situação", e "não culpar os mais fracos", acusou Ana Catarina Mendes.

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