Geringonça "foi alívio" mas "faltou vontade política" ao PS
O antigo coordenador do BE Francisco Louçã considera que a 'geringonça' foi "um alívio" com "medidas muito significativas" para a vida das pessoas, mas acusa o PS de "falta de vontade política" para responder estruturalmente aos problemas da economia.
Em entrevista à Lusa na semana em que se vai jubilar e dar a última lição no ISEG, Francisco Louçã refere que tem vida política ativa, apesar de "longe dos holofotes" e sem disputar qualquer lugar, admitindo que gostou de ser deputado, mas que hoje não gostaria devido ao "grau de degradação" do Parlamento.
Sobre o período da 'geringonça', quando o Governo minoritário socialista de António Costa foi apoiado no Parlamento por toda a esquerda, o antigo líder do BE considera que representou "uma mudança de clima" na economia depois de um "período de grande crispação" e de "agressividade política e social da 'troika'".
"Creio que não há nenhum aposentado ou aposentada que se esquecerá do que lhes fizeram aos subsídios de Natal e de férias e à compressão salarial. Saímos desse período para haver um princípio de recuperação. Respostas estruturais para os grandes problemas da economia nacional não foram dadas durante esse período", aponta.
De acordo com o economista e professor catedrático, "houve medidas corretivas", mas ficaram por fazer, por exemplo, "uma estratégia de industrialização ou de alteração da estrutura do mercado de habitação".
"Foi uma interrupção, um alívio, uma promessa", sintetiza sobre a geringonça, lembrando "medidas fundamentais" que foram então implementadas como os passes dos transportes ou os manuais escolares gratuitos.
Na perspetiva de Louça houve durante esse período "diferenças que são muitíssimo significativas na vida das pessoas", mas "faltou vontade política" ao PS para uma estratégia que transformasse "a habitação, o salário e as condições de vida".
Sobre o futuro, Louçã afasta o regresso a qualquer cargo público, sem qualquer arrependimento por, nas últimas eleições legislativas, ter voltado a encabeçar uma lista de deputados pelo BE, o que justifica com "circunstâncias muito excecionais".
"Foi um período de forte recuo da esquerda, de grande avanço da extrema-direita, de grande desagregação da direita. Ainda me consigo surpreender pela forma como Passos Coelhos se 'venturizou'", critica.
Quanto à situação económica atual, o professor catedrático considera que o PRR foi "uma oportunidade perdida" porque "não se concentra suficientemente em objetivos nem escolhe determinados objetivos".
"São distribuições clientelares ou setoriais de financiamentos para fazer recuperar alguns setores ou algumas empresas ou para cumprir objetivos atrasados de infraestrutura com déficits extraordinários", lamenta.
Louçã aponta um "capitalismo de liberalismo autoritário" e, sobre o caso português, refere que, como "as oportunidades de acumulação e de distribuição são reduzidas", o poder político tende a tornar-se "mais autoritário para garantir que elas são concentradas nas mãos daqueles que lhes são mais próximos", formando-se "gangues políticos e económicos à volta do poder".
Depois de 30 anos como professor, o antigo coordenador bloquista assegura que nunca levou a política para aulas e lecionou várias teorias com as quais estava profundamente em desacordo,
"Na ciência nós temos de ter uma abertura de pluralidade de opiniões que não pode ser contaminada ou restrita por qualquer visão política. Eu nunca lhes falei de qualquer atividade política, nunca convidei nenhum aluno para qualquer atividade política, isso era inconcebível, não tem nenhum sentido. É preciso respeitá-los, eles não podem ser instrumentalizados", afirma.
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