Centros de dados levantam dúvidas e debate sobre benefícios para territórios
A expansão dos centros de dados em Portugal e Espanha suscita dúvidas sobre consumos de água e energia, impactos territoriais e benefícios económicos, num debate em que promotores e ambientalistas defendem maior transparência.
"Num projeto que não é conhecido em termos públicos, que não está divulgado, as dúvidas são legítimas e as preocupações mantêm-se", afirmou à Lusa Paulo Constantino, do movimento ambientalista proTEJO, com sede em Vila Nova da Barquinha, após um 'webinar' realizado na quarta-feira.
Organizado pelo proTEJO, pelo Movimento Rio Douro e pela Plataforma Água Sustentável (PAS), o encontro reuniu uma ativista espanhola, um investigador português e um representante de um projeto de centro de dados em Abrantes, no distrito de Santarém, com perguntas do público.
Moderado pela jornalista Aline Flores, o debate abordou a expansão destas infraestruturas ligada à inteligência artificial, os seus impactos e a legislação anunciada pelo Governo para regular o setor.
Aurora Gómez Delgado, do coletivo espanhol 'Tu Nube Seca Mi Río', apresentou o caso de Talavera de la Reina, onde um projeto da Meta levantou receios sobre a utilização de água na bacia do Tejo.
A ativista questionou a transparência das empresas sobre consumos e empregos prometidos e defendeu uma moratória a novos grandes centros de dados até existirem regras claras.
Já o geógrafo Pedro Soares, investigador do Centro de Estudos Geográficos da Universidade de Lisboa, defendeu que a discussão não pode limitar-se à eficiência técnica, devendo abranger efeitos sociais e territoriais e a finalidade da economia digital.
"Que economia digital é que nós queremos? Ao serviço de quê? Ao serviço de quem?", questionou, reclamando legislação eficaz e um debate público alargado.
Ricardo Eiras, responsável pela gestão de projetos e operações da EDC One, contrapôs que a tecnologia permite reduzir impactos e criar benefícios locais, apresentando medidas previstas para o centro de dados que o consórcio pretende instalar junto ao Pego, em Abrantes.
Sublinhando que falava apenas pelo projeto EDC One, garantiu que não prevê captar água do Tejo e que o arrefecimento assentará em circuitos com líquido refrigerante e equipamentos a seco, embora com maior consumo elétrico nos dias mais quentes.
"Não vamos usar água de rio", assegurou, apontando um consumo estimado de cerca de 50 metros cúbicos diários para as necessidades dos trabalhadores, sem quantificar o consumo total da infraestrutura.
Segundo Ricardo Eiras, está em elaboração o estudo de impacte ambiental, com análise das quatro estações, e o projeto prevê aproveitar instalações industriais abandonadas da antiga RPP Solar.
O responsável referiu ainda uma solução habitacional para os primeiros 280 trabalhadores, apontando benefícios para o emprego e as infraestruturas locais.
Reconhecendo que o setor precisa de comunicar melhor, Ricardo Eiras disponibilizou-se para prestar esclarecimentos e receber visitas ao local.
Sobre uma avaliação conjunta com o outro centro de dados anunciado para Abrantes, da Hyperion, disse desconhecer os detalhes desse projeto e remeteu a decisão para as autoridades.
O proTEJO já tinha reclamado, em setembro, limites vinculativos ao consumo de água e energia e uma avaliação ambiental cumulativa dos dois investimentos, exigências agora reafirmadas por Paulo Constantino.
O dirigente considerou que o debate expôs preocupações e possíveis benefícios, mas não esclareceu suficientemente o que ganharão as populações e os territórios.
Contudo, elogiou a abertura e frontalidade do representante da EDC One, mas defendeu que os projetos e a legislação em preparação sejam apresentados antecipadamente à discussão pública.
"Enquanto não houver essa transparência, enquanto não houver essa colocação à discussão pública", afirmou, "a apreensão mantém-se".
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