"Só o Chega beneficia com o descrédito das instituições democráticas"
A socialista Alexandra Leitão vê com "imensa preocupação, mesmo muita" as buscas no gabinete do diretor nacional da Polícia Judiciária (PJ), Carlos Cabreiro.
No programa "O Princípio da Incerteza", da CNN Portugal, a jurista e ex-deputada da Assembleia da República (AR) defendeu que a PJ era "uma polícia que, até há relativamente pouco tempo - antes da campanha Luís Neves -, era confiável, em quem os cidadãos confiavam".
Por isso, vê com "imensa preocupação a degradação e perda de confiança que, seguramente, isto vai trazer, numa instituição democrática que era daquelas em que os cidadãos até confiavam muito".
E, para Alexandra Leitão, "não vale a pena procurarmos muito" para perceber quem são os culpados desta descredibilização. "Só há uma força política que beneficia com o descrédito das instituições democráticas: é o Chega e quem anda à sua volta. Mais ninguém, mais nenhum partido, mais nenhuma força política, mais nenhuma força da sociedade beneficia com o descrédito das instituições democráticas", atirou.
Na opinião da antiga ministra da Modernização do Estado e da Administração Pública, "se há suspeitas se algum método de investigação foi menos liso, menos regular, muito bem, isso tem de ser investigado". "Agora, voltamos aquilo que acontece sistematicamente: foi investigado na praça pública", enfatizou, lembrando que "o Ministério Público (MP) vai fazer uma busca à PJ e tudo se sabe".
Algo que Alexandra Leitão considera "inaceitável". "Enquanto isso afetou políticos - e afeta - é gravíssimo, é na mesma um descrédito das instituições, é inaceitável. Mas, agora, afeta a própria PJ".
Portanto, para a socialista, "se havia razões que justificavam as buscas", estas deviam ter sido feitas com "descrição, com segredo, para não criar este alarme social". Contudo, o que aconteceu, foi que "mais uma vez, souberam as televisões, os jornais, tudo e temos a PJ a ser atacada na praça pública, uma polícia onde o Chega não conseguiu entrar".
Alexandra Leitão sublinhou ainda a importância da celeridade da Justiça neste tipo de casos. "Naturalmente, nós queremos que a Justiça seja célere em todos os momentos mas também é verdade que há processos que, pelo alarme social que criam, pelo descrédito para as instituições democráticas que tratam, deviam ser particularmente céleres", notou, dando o exemplo deste caso das buscas ao gabinete de Carlos Cabreiro, mas também de "processos que fizeram cair governos e que ainda hoje, passados tantos anos, não se sabe nada".
A ex-candidata à presidência da autarquia de Lisboa recordou ainda da "ocorrência" no gabinete do Chega na Assembleia da República (AR). "Passaram 60 dias e a única coisa que veio a público é que soube-se por uma fonte que provavelmente nunca se vai descobrir o que aconteceu. Isso é muito mau para a democracia porque, de facto, há processos que geram tanto alarme social e são tão graves que precisavam mesmo de ser céleres".
"Curiosamente, ou não, isto acontece no mesmo dia em que se soube que a Comissão Parlamentar de Inquérito ao Luís Neves, que no fundo é também à Polícia Judiciária, vai avançar. É uma CPI potestativa do Chega. Portanto, não precisa ser aprovada pelos outros partidos. E creio que não contribuirá de todo para a credibilização da democracia. No fim do dia, tudo isto são coisas que fazem crescer quem de facto não tem amor à democracia e isso, de facto, preocupa-me muito", concluiu Alexandra Leitão.
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