"Compreendo a indignação das pessoas na rua, mas também faço um apelo"
O secretário-geral do PS admite compreender a "indignação das pessoas na rua" em defesa da habitação, mas pediu aos manifestantes que respeitem as "regras democráticas".
O pedido surge depois de, ontem, José Luís Carneiro ter pedido "explicações urgentes" do ministro da Administração Interna sobre a intervenção policial nas manifestações pela habitação no Porto.
"Compreendo a indignação das pessoas na rua, mas também faço um apelo: que manifestem a sua indignação, mas que procurem respeitar as regras democráticas e que procurem respeitar o direito de manifestação. O direito de manifestação implica também respeitar a ordem e a segurança públicas", apelou esta sexta-feira, antes de participar nas II Conferências de Fafe - "Portugal: Que Ambição?", no Teatro-Cinema de Fafe, moderadas por Luís Marques Mendes.
Na ótica do líder do PS, "é necessário avançar com um novo ciclo para uma nova política de habitação".
Para isso, José Luís Carneiro elenca algumas prioridades, de modo a criar oferta do lado da habitação. A primeira dessas prioridades é "uma política de solos". Em segundo lugar, "uma política fiscal e, em terceiro lugar, uma política de construção de habitação acessível em todo o país que mobilize o Estado, as autarquias, as cooperativas, as associações de moradores, para respondermos às 380 mil casas que são necessárias hoje para que as famílias portuguesas, os jovens portugueses, possam emancipar-se o mais cedo possível".
"Para mim, há um número que é especialmente grave, e é este: nos últimos dois anos, os custos com a habitação cresceram 28% em Portugal. Este número é ainda comparável também para pior com a chamada renda moderada. O Governo lançou a chamada renda moderada com 2.300 euros, que levou a um aumento dos custos com arrendamento em 34%. Um em cada cinco jovens no país hoje está a viver em casas partilhadas", criticou.
"Há dias, em Lisboa, pude saber que, no conjunto de candidaturas às casas que foram disponibilizadas pela freguesia de Benfica, 40% viviam em casa partilhada com familiares e, em muitos casos, com desconhecidos", notou ainda José Luís Carneiro.
Já ontem, o líder socialista tinha defendido que, no que se refere às manifestações, é preciso "salvaguardar dois valores fundamentais: por um lado, a liberdade de manifestação e, por outro lado, também a ordem pública".
"É preciso avaliar e pedir explicações urgentes ao ministro da Administração Interna para saber se a aplicação da lei se fez com a proporcionalidade devida. Mas sobre isso é preciso aguardar pelas explicações e pelas informações adicionais", sustentou.
Questionado se viu as imagens da carga policial, José Luís Carneiro admitiu que não, por ter estado ocupado com os trabalhos da cimeira do PSE, mas reiterou que irá procurar saber se "a intervenção foi feita com proporcionalidade".
O movimento pela habitação que tem protestado no Porto desde sábado, com uma acampada que ali começou nesse dia, denunciou uma carga policial na madrugada de quinta-feira que causou ferimentos em 37 dos participantes, dois dos quais ficaram em estado grave.
De acordo com o movimento, entre os feridos está uma pessoa com deficiência e vários participantes na concentração foram hospitalizados.
Em reação, a PSP alegou que "as reuniões e manifestações em lugares públicos não podem prolongar-se para além da 00h30" e que os manifestantes no Porto adotaram "comportamentos de resistência", que levaram à atuação policial, provocando "alguns feridos".
A PSP disse ter conhecimento de feridos entre os manifestantes, mas acrescenta que ainda não é "possível indicar o seu número".
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