Ciberataque a supermercados na França pode estar em andamento
A autoridade francesa de cibersegurança alertou hoje para a probabilidade de um ciberataque a supermercados ainda estar em curso, depois de sistemas de refrigeração de centenas de lojas de todo o país terem sido alvo de 'hackers' na segunda-feira.
Admitindo um aumento das preocupações com a segurança das cadeias vitais de abastecimento alimentar, a agência de cibersegurança recomendou que as lojas voltem a ligar os frigoríficos à Internet apenas através de uma ligação VPN segura ou rede protegida, e que instalem atualizações ou troquem as palavras-passe.
Os 'hackers' (piratas informáticos) assumiram o controlo remoto dos sistemas de refrigeração em centenas de supermercados e lojas independentes de toda a França na madrugada de segunda-feira, aumentando as temperaturas para 50 graus Celsius durante cerca de seis horas.
A situação obrigou as lojas a deitar fora produtos frescos e congelados, sendo que só a cadeia de supermercados Intermarché reportou prejuízos de "dezenas de milhões de euros" num único dia.
A Europol (a agência da União Europeia para a Cooperação Policial) está a investigar o caso, em paralelo com um episódio semelhante registado nos Países Baixos.
No mesmo dia, uma grande rede de supermercados estava a reiniciar os sistemas que tinha desligado por precaução quando aconteceu o que a empresa-mãe, a Ahold Delhaize, classificou de "incidente de cibersegurança".
O Centro Nacional de Cibersegurança neerlandês afirmou que vários ciberincidentes afetaram o setor alimentar europeu, mas que "não há motivos, neste momento, para acreditar que os casos estejam relacionados".
Nenhum autor foi identificado publicamente e nenhuma reivindicação de responsabilidade foi divulgada.
Segundo avançou à agência de notícias Associated Press (AP) o antigo diretor de operações da Agência Francesa de Cibersegurança François Deruty, os responsáveis tanto podem ser agentes sofisticados patrocinados por um Estado como um estudante francês insatisfeito.
Os protestos de alunos do ensino secundário, revoltados com as escolas degradadas e com a falta de pessoal, têm abalado França desde meados de setembro.
"Ainda não consigo determinar se está a ser orquestrado por alguém ou se é um indivíduo que tenta aproveitar o caos reinante para exibir as suas capacidades ou enviar uma mensagem", disse Deruty, que é agora diretor dos serviços de informações da empresa de cibersegurança Sekoia.
Para o especialista, as vulnerabilidades de 'software' exploradas no ataque em França "são um acidente anunciado", mas o caso também demonstrou que "as pessoas simplesmente não tinham atualizado os seus equipamentos" com as atualizações de segurança.
Segundo o ministro das Finanças francês, Roland Lescure, cerca de 700 dos 10 mil supermercados do país foram afetados.
Embora tenha garantido que não há risco para o abastecimento alimentar de França, o ministro reconheceu que o ataque "atinge o cerne da segurança alimentar" do país e considerou o incidente como "um alerta para todos".
Nos Países Baixos, o Governo recomendou que as famílias armazenem bens que garantam alimentação suficiente para três dias, seguindo um relatório que sugeria que cada casa devia ter uma reserva para "pôr comida na mesa durante oito dias".
O investigador sénior do Instituto Clingendael Pieter Zwaan, coautor do relatório, avisou que, naquele país, os supermercados dependem de entregas "just in time" (no momento em que são necessárias), feitas várias vezes por dia para manter as prateleiras abastecidas.
"Sem tecnologias de informação e eletricidade, é impossível encomendar e entregar produtos aos supermercados" com tanta frequência, pelo que é melhor ter algumas provisões em casa, alertou.
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