Pressão política sobre relatora da ONU. Afinal, o que disse Albanese?
Francesca Albanese, relatora especial das Nações Unidas da ONU para os Territórios Palestinianos, está, por estes dias, envolvida numa polémica que já levou a que alguns países pedissem a sua demissão. Em causa estão declarações que a própria já negou ter proferido. Afinal, o que se passa?
França, Alemanha, Itália e República Checa pediram a demissão de Albanese, acusando-a de ter afirmado que Israel é o "inimigo comum da humanidade", declarações que a própria classificou como falsas e descontextualizadas.
A polémica começou em França, onde a deputada Caroline Yadan afirmou, numa intervenção na Assembleia, que Albanese teria classificado Israel como "inimigo comum da humanidade" durante um fórum da Al Jazeera realizado no Qatar, a 7 de fevereiro, no qual a relatora participou por videoconferência.
França, membro permanente do Conselho de Segurança das Nações Unidas, defendeu, ainda na semana passada, a demissão da relatora especial da ONU, com o chefe da diplomacia, Jean-Noël Barrot, a considerar os comentários "escandalosos e condenáveis".
Numa intervenção no parlamento, o ministro dos Negócios Estrangeiros frisou que "França condena sem reservas os comentários escandalosos e condenáveis da senhora Francesca Albanese, que não são dirigidos ao Governo israelita, cujas políticas podem ser criticadas, mas sim a Israel enquanto povo e Nação, o que é absolutamente inaceitável".
As autoridades francesas vão formalizar o pedido numa reunião do Conselho dos Direitos Humanos da ONU, em 23 de fevereiro.
A Alemanha - considerada o maior aliado de Israel na Europa - juntou-se a França no pedido de destituição.
"A senhora Albanese já fez inúmeros comentários inadequados no passado. Condeno as suas declarações recentes sobre Israel. Ela é inadequada para o cargo", escreveu o ministro dos Negócios Estrangeiros, Johann Wadephul, numa mensagem publicada no X (antigo Twitter).
Ich respektiere das System unabhängiger Berichterstatter der UN. Frau Albanese hat sich jedoch bereits in der Vergangenheit vielfach Ausfälle geleistet. Ich verurteile ihre jüngsten Aussagen über Israel. Sie ist in ihrer Position unhaltbar. — Johann Wadephul (@AussenMinDE) February 12, 2026
Às vozes críticas a Albanese juntou-se, também, o partido italiano Liga (extrema-direita), que integra o governo liderado por Giorgia Meloni. Também na semana passada, juntou-se aos apelos e defendeu a demissão imediata da relatora.
"A Liga tem apenas uma exigência relativamente a Albanese: a demissão!", disseram deputados do partido de extrema-direita, que apresentaram uma resolução, juntando-se "à França e a todos os outros países para apelar à relatora especial das Nações Unidas para os Territórios Palestinianos que deixe imediatamente o cargo".
"Quem chama a Israel - por exemplo - de 'inimigo comum da humanidade' tem poucas razões para se declarar imparcial e está a alimentar mais do que legítimas suspeitas sobre o seu antissemitismo", consideraram os deputados.
Por sua vez, a República Checa pediu a demissão de Francesca Albanese por alegadamente ter considerado Israel "um inimigo comum da humanidade".
"A paciência tem limites. A relatora especial da ONU, Francesca Albanese, deve demitir-se", afirmou o Ministério dos Negócios Estrangeiros checo num comunicado citado pela agência de notícias espanhola Europa Press (EP).
A diplomacia checa descreveu as declarações atribuídas a Albanese como "inaceitáveis e indefensáveis", e considerou que tal "retórica não contribui para reduzir a tensão" no Médio Oriente.
"Pelo contrário, apenas aumenta as tensões e mina a confiança na imparcialidade da ONU e do seu sistema. Esperamos responsabilidade, profissionalismo e imparcialidade por parte de representantes das Nações Unidas", acrescentou o ministério.
Mas, afinal, o que disse Albanese?
Francesca Albanese já negou ter feito as declarações das quais é acusada sobre Israel. Intervindo por videoconferência no sábado, num fórum organizado em Doha pelo canal qatari Al-Jazeera, Albanese falou de um "inimigo comum" que, considerou, permitiu um "genocídio" em Gaza.
"O facto de que, em vez de parar Israel, a maioria dos países do mundo o tenha armado, dado desculpas políticas, um guarda-chuva político, bem como apoio económico e financeiro, é um desafio", afirmou.
"Nós, que não controlamos um vasto capital financeiro, nem algoritmos, nem armas, agora vemos que, como humanidade, temos um inimigo comum", acrescentou.
Numa publicação nas redes sociais na segunda-feira, Albanese defendeu-se das críticas dizendo que "o inimigo comum da humanidade é O SISTEMA que permitiu o genocídio na Palestina", recorrendo à escrita em letras maiúsculas para enfatizar a mensagem.
My full AJ Forum speech last week: the common enemy of humanity is THE SYSTEM that has enabled the genocide in Palestine, including the financial capital that funds it, the algorithms that obscure it and the weapons that enable it. pic.twitter.com/PzTQFFybsG — Francesca Albanese, UN Special Rapporteur oPt (@FranceskAlbs) February 9, 2026
Do lado da relatora da ONU estão cem figuras da cultura - como Mark Ruffalo, Javier Bardem, Annie Ernaux ou Annie Lennox - que, numa missiva enviada à AFP, ofereceram "total apoio a Francesca Albanese, defensora dos direitos humanos e, portanto, também do direito do povo palestiniano à existência."
Ataques a Albanese visam "desacreditar" denúncias sobre Gaza
Em reação, esta segunda-feira, um responsável da ONU defendeu que os ataques a Francesca Albanese, relatora especial das Nações Unidas da ONU para os Territórios Palestinianos, visam "desacreditar e silenciar quem denuncia os impactos sobre os direitos humanos".
"Uma e outra vez, durante a guerra em Gaza, temos visto campanhas coordenadas que procuram desacreditar e silenciar quem denuncia os impactos sobre os direitos humanos e as violações do direito internacional humanitário", escreveu Philippe Lazzarini, comissário-geral da Agência das ONU de Assistência aos Refugiados da Palestina (UNRWA) numa mensagem na rede social X.
Over & over during the war in #Gaza, we have seen how coordinated campaigns seek to discredit + silence those who speak out about human rights impacts & violations of international humanitarian law.
The latest attacks on @FranceskAlbs — an independent expert mandated by @UN_HRC… — Philippe Lazzarini (@UNLazzarini) February 16, 2026
"Os mais recentes ataques contra a relatora especial das Nações Unidas para os Territórios Palestinianos", Francesca Albanese, "uma perita independente designada pelas ONU para acompanhar a situação no território palestiniano ocupado, têm como objetivo silenciar a sua voz e minar os poucos mecanismos independentes de informação sobre direitos humanos que ainda subsistem", acrescentou.
"A forma como reagimos às notícias falsas e às campanhas de desinformação é um sinal da nossa bússola moral", indicou Lazzarini.
A especialista em direitos humanos tem denunciado em vários relatórios os crimes cometidos desde os ataques de 7 de outubro de 2023 em Israel e classificou como "genocídio" a intervenção israelita em Gaza.
O ataque do Hamas contra Israel provocou a morte de cerca de 1.200 pessoas e levou ao sequestro de outras 251, reféns, muitos deles já mortos, devolvidos na totalidade ao país.
Em retaliação ao ataque do Hamas, Israel lançou uma operação militar em grande escala na Faixa de Gaza, que causou mais de 72 mil mortos, um desastre humanitário, a destruição de quase todas as infraestruturas do território e a deslocação de centenas de milhares de pessoas.
Leia Também: França pede demissão da relatora da ONU para os territórios palestinianos
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