Presidenciais? Há quem vá "enfiar o barrete", mas "podemos ter surpresas"
Na ótica do politólogo José Adelino Maltez, a campanha para as eleições presidenciais, que levará os portugueses às urnas no próximo domingo, "correu perante as circunstâncias". O professor catedrático assumiu, ainda assim, gostar de "desdramatizar", ao mesmo tempo que considerou que "alguns [candidatos] vão enfiar o barrete". Contudo, o especialista em Ciência Política alertou que "podemos ter surpresas", já que "vão ser os homens comuns a decidir quem será o homem comum que se vai sentar no Palácio de Belém".
"Os candidatos que se apresentam são todos homens comuns. Não há ali nenhum homem de génio, por isso é que as sondagens medem que há muitos empatados. Isso dá azo a uma coisa que é muito importante para a saúde da democracia: cada um dos votantes sente-se dono da decisão. Portanto, vão ser os homens comuns a decidir quem será o homem comum que se vai sentar no Palácio de Belém", disse, em declarações ao Notícias ao Minuto.
Apesar dos "casos e casinhos" que assolaram as campanhas de um leque dos presidenciáveis, José Adelino Maltez ressalvou que "nenhum revela a existência de uma campanha suja, nem é passível de explicação por teorias da conspiração". Nesta "disputa para chefe de turma", o politólogo alertou, no entanto, que "a decisão coletiva do voto não pode ser a vontade de todos".
"Quando cada um dos elementos do todo decide o voto a pensar nos próprios interesses, não é democracia. A democracia implica boa educação e tem de expressar, num momento eleitoral, aquilo que Jean-Jacques Rousseau chamava de vontade geral: cada indivíduo decide a pensar não nos próprios interesses, mas nos interesses da pátria, mesmo que os interesses da pátria sejam contra o seu interesse individual. Vai decidir, no domingo, como se ele próprio, nesse momento, fosse o Presidente da República. Isso é que é a vontade geral, essa exigência cívica de escolher aquele que melhor será o soberano. No momento do voto, cada um de nós é o soberano de Portugal", concretizou, indicando que "é melhor termos um homem comum na Presidência da República, do que um tipo que pensa que é genial, narciso, salvador".
Questionado quanto aos apelos ao voto útil, particularmente no que à Esquerda diz respeito, José Adelino Maltez foi taxativo: "É útil para quem o recebe, mas pode ser perfeitamente inútil para quem o dá."
"Quando dizem para não votarem nesses, que não contam, eu digo ao contrário. Votem nesses, que isso também conta para termos mais pluralismo", justificou.
Fim da linha para Luís Marques Mendes? "Pode ser que até acabe por vencer"
O especialista equacionou que, "como não apareceu ninguém a usar uma vassoura como símbolo, uma motosserra, uma moca de Rio Maior ou um pau do jogo do pau de Fafe, ficou tudo aborrecido, porque gostavam de vê-los a fazer teatro desta maneira". É que, recordou, "os candidatos vêm quase todos da política, ou da direção de jotas, ou de altos cargos do Estado – não é política, mas é política de defesa nacional, no caso do almirante".
Apesar de ter assumido que "alguns [candidatos] vão enfiar o barrete", o politólogo alertou para os perigos das "precipitações", uma vez que "aqueles que dizemos que vão enfiar o barrete podem não enfiar". "Ainda estamos no momento antes da decisão e podemos ter surpresas", complementou.
Em concreto, José Adelino Maltez indicou o caso de Luís Marques Mendes, que pode ter "entrado na campanha com uma base de sustentação bastante boa, e pode ser que até acabe por vencer", ao contrário do que indicam as sondagens dos últimos dias.
"Acho que cada um daqueles cinco grandes [António José Seguro, Henrique Gouveia e Melo, Luís Marques Mendes, João Cotrim de Figueiredo e André Ventura], que isto é como o campeonato de futebol, está com essa secreta esperança. Todos vão adormecer com esperança", disse.
No entanto, o próprio especialista confessou: "Sei muito bem em quem não voto, não tenho entusiasmo sobre quem irei votar."
"Vou sair de casa com dúvidas. Mas, no passeio até lá, decido. Não tenho preferências por nenhum, tenho alguns ódios de estimação. Aí, vou tentar ser mais racional. Claro que gostava que alguns levassem uma banhada, mas tenho de votar em nome da vontade geral e não da vontade de todos", rematou.
Note-se que estão na corrida a Belém António José Seguro, Henrique Gouveia e Melo, Luís Marques Mendes, João Cotrim de Figueiredo, Catarina Martins, António Filipe, André Ventura, Jorge Pinto, Humberto Correia, André Pestana e Manuel João Vieira.
Caso nenhum dos presidenciáveis tenha maioria absoluta, haverá uma segunda volta do sufrágio, no dia 8 de fevereiro, à qual concorrerão apenas os dois mais votados.
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