Os votos "ilustres" de Marcelo para 2026: O Eça e as (divididas) reações
O Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, deixou, na quinta-feira, a sua última mensagem de Ano Novo. A poucos dias de Portugal ir a votos para lhe escolher um sucessor, Marcelo 'chamou' Eça de Queirós a Belém, citando-o durante o discurso que demorou pouco menos de seis minutos.
Mas se Eça é um dos autores mais amados por Portugal, é também um dos que através das suas palavras deixava mais críticas ao país, nomeadamente, à sociedade do século XIX.
E entre as palavras de Marcelo e as citações tiradas da obra "A ilustre casa de Ramires", as reações incluíram também críticas - estas no séc. XXI - dirigidas a Marcelo (ou não).
Com que mensagem se despediu Marcelo?
O chefe de Estado começou por falar no que se vai assinalar neste novo ano - do meio século de Constituição, nos 40 anos de adesão à União Europeia e mais. "Que ano... não digo único, mas singular, que hoje começa. 'Ano novo, vida nova', diz o povo. E neste início de 2026 é esse o voto de tantos por todo o mundo, desejando a paz duradoura no Médio Oriente, na Ucrânia, também no Sudão", começou por referir, apelando ao respeito pela dignidade e cumprimento do Direito Internacional.
"Um ano com mais desenvolvimento, mais Justiça, mais liberdade, mais igualdade, mais solidariedade. O mesmo desejo vale para nós, vale para Portugal. Ano Novo, vida nova. Também com mais saúde, mais educação, mais habitação, ainda mais crescimento, ainda mais emprego e menor pobreza e desigualdade", desejou.
Marcelo falou ainda sobre a existência do sentido de coesão nacional com "ideias, soluções e pessoas novas" e mostrou-se convicto de que Portugal terá "melhor futuro do que passado."
Depois, Marcelo citou a obra de Eça, fala sobre um fidalgo que escreve sobre os feitos heroicos dos seus antepassados, por forma a restaurar o prestígio da sua família.
Citando o excerto da obra, e referindo que a personagem Gonçalo o recordava de Portugal, Marcelo terminou: "Queridos compatriotas, com qualidades e coragem excecionais que de longe superam os defeitos, assim somos há quase 900 anos, assim seremos sempre."
As reações: Da Esquerda à Direita (e os candidatos a Belém)
Após o discurso de Marcelo, os partidos de Esquerda sublinharam a sua preocupação com a "degradação dos serviços públicos" e pediram uma "mudança de rumo."
Pedro Guerreiro, do secretariado do Comité Central do Partido Comunista Português, criticou a "degradação dos serviços públicos", nomeadamente do Serviço Nacional de Saúde (SNS) e da escola pública, "que está na raiz crescente de injustiças e desigualdades" e que "ataca quem trabalha".
Já a líder parlamentar e co-presidente do Livre, Isabel Mendes Lopes, comparou o discurso do Presidente da República ao do primeiro-ministro, referindo que Marcelo Rebelo de Sousa se focou "nas qualidades dos portugueses" e naquilo que conseguiram atingir coletivamente ao longo destes últimos anos" em "contraponto" com Luís Montenegro, que se centrou na "mentalidade de Cristiano Ronaldo, muito mais focada na competição e em algum individualismo."
Miguel Cardina, membro da comissão política do Bloco de Esquerda (BE), considerou que esta "foi uma oportunidade perdida" da parte de Marcelo Rebelo de Sousa para "acentuar as grandes preocupações que a generalidade dos portugueses sente", nomeadamente ao nível do custo da habitação, da saúde ou dos "ataques aos direitos laborais".
Já o PAN, pela voz de Inês Sousa Real, salientou que o discurso do Presidente transmitiu uma clara "preocupação com aquilo que é o futuro do país, quer relativamente à escolha das presidenciais, quer relativamente ao atual Governo".
Enquanto o Partido Social Democrata (PSD) e o CDS saudaram as palavras de Marcelo, elogiando a sua relação com os portugueses e os avisos que deixou para o futuro, a Iniciativa Liberal (IL) foi mais crítica.
Leonor Beleza, vice-presidente do PSD salientou "dois aspetos" de Marcelo: "Ele conhece-nos, conhece Portugal muito bem, sabe quais são as nossas forças, as nossas fraquezas, sabe o que é que podemos aspirar, sabe como é que temos de nos transformar. Ele, como quase ninguém, sabe identificar estes fatores e sabe falar para todos nós."
O partido, afirmou, "sente-se muito motivado em contribuir para que os problemas que os portugueses sentem sejam ultrapassados" com as "capacidades que manifestamente os portugueses têm e podem mobilizar para ultrapassar essas dificuldades".
Já Durval Ferreira recordou as dificuldades da presidência de Marcelo, da pandemia de Covid-19 à guerra na Ucrânia, e aplaudiu o seu sentido de responsabilidade.
O dirigente centrista disse "reconhecer que, nos momentos particulares e mais difíceis [do seu mandato], foi para todos os portugueses um farol de responsabilidade, até de alguma tranquilidade" e que ajudou "a unir e a ultrapassar momentos difíceis".
Os candidatos presidenciais António Filipe, Catarina Martins e André Ventura criticaram e apontaram falhas à mensagem de Marcelo, nomeadamente, por não ter falado dos problemas que afetam portugueses.
Catarina Martins, apoiada pelo Bloco, criticou Marcelo por "olhar" para o Portugal de há 125 anos, citando um texto de Eça de Queiroz, sublinhando ter faltado "uma palavra" sobre os problemas na saúde, e as horas de espera nos hospitais, ou o custo de vida.
"Talvez por estar em final de mandato [o Presidente] não tenha querido fazer uma mensagem mais direcionada aos problemas concretos. Faltou uma palavra para o desespero que vimos nestes dias no acesso à saúde, por exemplo, que continua a ser uma das questões mais complicadas do nosso país, ou o custo de vida", explicou.
António Filipe, apoiado pelo PCP, afirmou que a mensagem de otimismo de Marcelo Rebelo de Sousa para o futuro não se vai concretizar na saúde, nas leis laborais, que ameaçam mais precariedade, ou na educação.
Para que 2026 "possa ser melhor para a esmagadora maioria dos portugueses, é preciso que haja uma mudança política em questões fundamentais da política nacional."
O líder do Chega e candidato a Presidente da República, André Ventura, elogiou a forma "neutral" e "objetiva" feita por Marcelo Rebelo de Sousa quanto ao "diagnóstico" do estado do país, mas considerou que, tal como no restante mandato, faltou "a capacidade de intervenção e ação política".
"Os portugueses não precisam de um Presidente que faça diagnósticos e análises", apontou, criticando a postura de "analista" do atual chefe de Estado e defendendo que o país "precisa de um Presidente" interventivo e que "tome "decisões difíceis".
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