"O país precisa mais de três Salazares do que de três Álvaros Cunhais"
O presidente do Chega, André Ventura, reforçou, este sábado, que "o país precisa de três Salazares", tendo lançado que, se tivesse dito que "fazem falta três Otelos Saraiva de Carvalho ou três Álvaros Cunhais" teria sido "muito melhor" entendido. Frisou, contudo, não ser defensor de António de Oliveira Salazar, ao mesmo tempo que assegurou que a ser eleito, não será um Presidente da República que se limite a cortar fitas, papel que atribuiu aos restantes candidatos na corrida a Belém.
"Se tivesse dito, 'o país precisa de três Álvaros Cunhais’, ficaria indignado? Ou 'três Otelos Saraiva de Carvalho’? Aí havia problema ou não havia problema? Ou criámos uma narrativa de que ser de Direita é mau, que os gajos da Esquerda são bons e só podemos ser de Esquerda em Portugal?", questionou, em entrevista à CNN Portugal.
O líder do Chega sustentou que a afirmação que proferiu na antena da SIC Notícias se trata de "uma expressão popular que é muito usada", tendo ressalvado que "não podemos comparar Salazar ou o regime do Estado Novo com o tempo em que estamos a viver".
“Não sou defensor de Salazar, mas acho que o país entrou de tal forma numa bandalheira em termos de criminalidade, em termos de organização, que hoje, francamente, acho que eram precisos três Salazares para pôr o país na ordem. Se calhar, se tivesse dito que fazem falta três Otelos Saraiva de Carvalho ou três Álvaros Cunhais, o país entenderia muito melhor e ficava contente. […] Esses sim, mataram, puseram bombas, quiseram destruir o país. Salazar cometeu muitos erros, mas pelo menos conseguiu acabar com a bandalheira”, atirou, complementando que "o país precisa mais de três Salazares do que de três Otelos Saraiva de Carvalho ou de três Álvaros Cunhais".
Do mesmo modo, repetiu a ideia de que o Presidente da República se torna, muitas vezes, um corta-fitas, papel que atribuiu ao almirante Henrique Gouveia e Melo, a Luís Marques Mendes e a António José Seguro, também eles candidatos às eleições presidenciais de 2026. "Eu não vou ser esse corta-fitas", salientou.
"Tirando o general Ramalho Eanes, tivemos sempre maus Presidentes. Depois houve outros, como este que temos agora, que procuraram gerar uma lógica de maior intervenção, mas uma intervenção atabalhoada", disse, defendendo que o chefe de Estado "é um condutor do destino da nação".
Numa entrevista que foi, desde o início, pautada por ataques aos comentadores e ao jornalista, - que acusou, inclusive, de disseminar notícias falsas -, André Ventura assumiu encarar a política "como uma missão e não como uma ambição", razão pela qual se chegou à frente como candidato, apesar de não ser esse o seu desejo.
"Não quero concorrer por ser candidato; isso é mau, é errado. O país sabe que estas não eram as eleições que eu desejava. O país sabe que o Chega procurou ter um candidato com afirmação política nesta área, na luta contra a corrupção, na imigração, na questão da segurança, na questão dos valores tradicionais do país e na defesa da identidade nacional, e nenhum dos candidatos fez isso", explanou.
"Tenho a certeza que Sá Carneiro seria contra o sistema"
Questionado quanto à natureza do sistema que pretende combater, uma vez que, na maioria das definições, o Chega encontra-se inserido nesse mesmo sistema, o candidato recorreu à polémica com os cartazes em que se liam afirmações como "Isto não é o Bangladesh" e "Os ciganos têm de cumprir a lei" para sustentar que, na sua ótica, está "no caminho certo".
"Quando há um sistema que permanentemente se une contra uma pessoa ou contra um partido, tenho a convicção de que, como dizia [Winston] Churchill, estou no caminho certo. Ainda agora tive essa sensação, com isto dos cartazes dos ciganos e do Bangladesh, quando se via o país todo incomodado com o facto de se dizer que ‘isto não é o Bangladesh’. Meus amigos, não é o Bangladesh, não quero que seja o Bangladesh", disse, apontando que a onda de reações negativas de que foi alvo pertencem ao sistema.
Assumiu, além disso, que não pode prometer que nunca terá um deputado ou um presidente de Câmara que não seja cumpridor da lei, mas que a sua atitude "vai ser sempre de fazer essa limpeza".
"Nos casos mais conhecidos, que entendi que eram verdadeiramente graves, afastei imediatamente as pessoas, o que não aconteceu no PSD e muito menos no PS. […] Pergunto, [Francisco] Sá Carneiro seria uma pessoa do sistema? Não é por ser líder do PSD ou por ser candidato a Presidente da República ou a presidente de Câmara que se deixa de ser contra o sistema. Tenho a certeza que Sá Carneiro seria contra o sistema", especulou.
"Foi o PSD que não quis acompanhar a mudança que estava a acontecer no mundo"
André Ventura rejeitou ainda que o Chega tenha crescido graças à difusão de notícias falsas, apesar dos inúmeros casos associados ao partido. A título de exemplo, o Chega foi o partido que mais propagou desinformação nas suas redes sociais nas últimas eleições legislativas, de acordo um estudo feito pela Universidade da Beira Interior (UBI), em parceria com a Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC). O Observatório Europeu dos Media Digitais (EDMO) também ligou o Chega ao aumento de desinformação anti-imigração, sugerindo, em alguns casos, uma coordenação com o partido de extrema-direita Vox, de Espanha.
"Não, não fazemos o crescimento à base de notícias falsas. Dizemos verdades que as pessoas não estão habituadas a ouvir e que os senhores, muitas vezes, não querem publicar. É essa a diferença entre um partido crescer porque tem o voto das pessoas e outros crescerem porque não precisam de votos, nunca vão ao escrutínio", disse.
Confrontado com as suas posições contraditórias ao longo dos anos, particularmente no que à comunidade cigana e aos imigrantes diz respeito, o líder do Chega recordou que perdeu o apoio do CDS, em 2017, porque "quis levar avante aquilo em que acreditava, mesmo que viessem processos, mesmo que viessem acusações".
"Sabe porque é que perdi o apoio do CDS, quando era candidato do PSD, em 2017? Porque disse que os ciganos tinham de trabalhar, que os ciganos não podiam continuar a viver de subsídios, nem a viver à margem da lei. Nesse momento não era do Chega, era dirigente do PSD. […] Não fui eu que virei as costas ao PSD, o PSD virou as costas a este discurso e a este modelo. Aliás, tive em Loures um dos melhores resultados de sempre com o PSD", apontou, tendo confessado ter "a certeza" de que, atualmente, "Sá Carneiro diria a mesma coisa".
Ventura assumiu que continua a acreditar que devemos ajudar "uma mulher [que venha] fugida do Paquistão ou Afeganistão", mas rejeitou aceitar a entrada de "toda a gente sem qualquer critério".
"Outra coisa é entrar toda a gente sem qualquer critério, sem qualquer regra – criminosos, bandidos, brasileiros, paquistaneses, do Bangladesh, tudo cá para dentro de qualquer maneira. Isso não é ser social-democrata, nem democrata-cristão. Isso é ser estúpido, porque é destruir o país", disse.
E rematou: "Foi o PSD que não quis acompanhar a mudança que estava a acontecer no mundo. Hoje, se calhar, teríamos um país completamente diferente, se o PSD tivesse feito a tempo esta mudança."
Leia Também: Sondagem: Mendes prega rasteira a almirante, que afunda pela 1.ª vez
Qual é a sua reação?
Gosto
0
Não gosto
0
Amor
0
Engraçado
0
Zangado
0
Triste
0
Wow
0


