O "muro", o "flic flac" e a "neutralidade". Presidenciais no debate da AR
Um dos temas que marcou o debate quinzenal desta tarde no Parlamento foi, como não poderia deixar de ser, as eleições presidenciais - que ditaram, no passado domingo, a ida de António José Seguro e André Ventura a uma segunda volta (a 8 de fevereiro). Os partidos versaram sobre a 'neutralidade' de Luís Montenegro que, recorde-se, adiantou logo na noite eleitoral que o PSD não emitiria qualquer indicação de voto, considerando que nenhum dos dois candidatos representa o espaço do seu partido.
O Chega desafiou Luís Montenegro, esta quarta-feira, na Assembleia da República, a dizer quem apoia na segunda volta, perguntando-lhe se "vai estar ao lado do socialismo ou ao lado de quem combate o socialismo". "Não podemos ficar em cima do muro", salientou.
Luís Montenegro pediu ao Chega que não confunda "as duas voltas das eleições legislativas", em 2024 e 2025, com "as duas voltas das eleições presidenciais".
Referindo que "os candidatos que passaram à segunda volta são os candidatos que representam no espaço político que está representado nesta câmara, precisamente, o espaço da Direita e o espaço da Esquerda", o primeiro-ministro afirmou ainda que cabe "ao Governo e ao primeiro-ministro respeitar a pronúncia e a decisão soberana do povo português".
"O que é que cabe aos partidos e ao principal partido da coligação do Governo e do espaço político central, que é maioritário nesta câmara? Cabe também acatar e, de alguma maneira, conviver, com as consequências de não ter evitado a dispersão de votos no seu espaço político", acrescentou.
Por sua vez, o líder parlamentar do PSD acusou o Chega de contradição por querer o apoio do primeiro-ministro ao candidato presidencial André Ventura, depois de ter criticado a sua presença na campanha de Marques Mendes.
Em tom irónico, Hugo Soares citou frases ditas pelo candidato apoiado pelo Chega na primeira volta, quando acusou Montenegro de querer ser "o salva-bóias" de Luís Marques Mendes, candidato apoiado por PSD e CDS-PP, afirmando que chegou a criticar a entrada na campanha do líder do PSD e a dizer "que se lixe Montenegro".
"É isso que André Ventura disse ao país sobre o primeiro-ministro e agora vêm pedir ao primeiro-ministro para apoiar a candidatura do dr. André Ventura?", questionou, recebendo muitas palmas da sua bancada.
Para Hugo Soares, ou Pedro Pinto não concertou posições com André Ventura ou o Chega "fez um 'flic flac' à retaguarda". "Já não há medo que Montenegro entre na campanha, afinal até dava jeito apoio do primeiro-ministro", criticou.
IL acusa Montenegro: "Interesses partidários à frente dos interesses do país"
Por sua vez, a presidente da IL acusou o primeiro-ministro de ter posto o PSD à frente do interesse nacional nas Presidenciais, mas Luís Montenegro lembrou que Mariana Leitão abdicou da sua candidatura presidencial para ser líder partidária.
"No primeiro dia da campanha eleitoral, [Luís Montenegro] fez um apelo ao voto útil e, depois, quando a realidade o ultrapassou, ignorou-a", sustentou a presidente da IL, numa alusão ao facto de o presidente do PSD ter insistido no apoio à candidatura de Marques Mendes, que ficou em quinto lugar, bem atrás do liberal Cotrim Figueiredo, que ficou em terceiro.
Depois, Mariana Leitão deixou a seguinte pergunta ao primeiro-ministro e presidente do PSD: "Já consegue explicar aos portugueses a razão que o motivou a colocar os seus interesses partidários à frente dos interesses do país, levando a que não exista um candidato de centro-direita na segunda volta destas presidenciais?"
O primeiro-ministro devolveu: "Se há alguém que encarou as eleições presidenciais sob o ponto de vista do interesse partidário, com todo o respeito, foi a senhora deputada [Mariana Leitão], porque deixou de ser candidata presidencial para assumir um cargo partidário".
PCP acusa Montenegro de não se posicionar para ter apoio do Chega e PS
Já o secretário-geral do PCP acusou o primeiro-ministro de não se posicionar sobre a segunda volta das Presidenciais para garantir, alternadamente, o apoio de Chega e PS, tendo Luís Montenegro recusado qualquer "natureza tática" nas suas escolhas.
Para o comunista, está em causa uma opção tática de Montenegro para garantir que o Governo tem o apoio necessário de PS e Chega em diferentes matérias. "Nós percebemos a tática. Quer manter no PS uma reserva para quando for necessário acenar a chantagem o PS dar-lhe a mão em questões estruturais, como fez no Orçamento de Estado deste ano. Ao mesmo tempo, quero manter a continuidade do apoio do Chega naquilo que é decisivo para a sua própria governação. Porque sabe que o Chega e o candidato André Ventura nunca lhe faltarão", argumentou.
Na réplica, o primeiro-ministro defendeu que, ao contrário do que disse Raimundo, as políticas do executivo "são virtuosas" e assegurou que a opção que tomou em relação às presidenciais não foi feita por "nenhum elemento de natureza tática face às demais forças políticas".
"Participámos, enquanto estruturas partidárias, numa campanha eleitoral, tínhamos a convicção de que o candidato que apoiávamos era o candidato mais bem preparado para esta função e correspondia à representação do nosso espaço político (...) Cada um de nós faz agora a avaliação daquelas que são as opções e exercerá o seu direito de voto. Os espaços políticos que estão em confrontação neste momento não são o nosso", acrescentou.
Não consegue escolher entre "democrata" e "aliado de Trump"
Pelo Livre, tomou a palavra a co-porta-voz Isabel Mendes Lopes, que considerou que o primeiro-ministro não consegue escolher entre um candidato presidencial de extrema-direita que admira o presidente norte-americano, Donald Trump, e um democrata que respeita as instituições.
"São dois espaços políticos muito claros em que está em causa: de um lado, um democrata, alguém que respeita as instituições e, do outro lado, um candidato que disse abertamente que quer acabar com o regime e que, aliás, é também aliado de Donald Trump", disse a deputada do Livre referindo-se à segunda volta das eleições presidenciais.
Mendes Lopes referiu que o Governo tem-se deixado "contaminar pela extrema direita" e que "há uma diluição daquilo que devia ser uma divisão clara entre a direita democrática e a extrema-direita", criticando ainda o posicionamento internacional do Governo que diz ser "muitas vezes inexistente" em relação às ações do presidente republicano dos Estados Unidos.
Por sua vez, Luís Montenegro acusou a Esquerda parlamentar de não ter tido problemas em "contar com os votos da direita para promover aquilo que era o seu objetivo em termos de resultado".
"Portanto, para umas coisas serve, para outras coisas está fora", disse o primeiro-ministro, após elencar momentos em que a Esquerda votou ao lado do Chega no Parlamento "para abolir portagens, quando foi preciso haver conjugação para congelar propinas" e para "contrariar a política do Governo em sede de diminuição do IRS".
Paulo Núncio rejeita que Ventura seja "candidato antidemocrata"
Na sua intervenção, Paulo Núncio, o líder parlamentar do CDS-PP, rejeitou que se qualifique o presidente do Chega, André Ventura, de "candidato antidemocrata" a Presidente da República, e que o PS reclame como vitória sua o resultado obtido por António José Seguro.
"Ouço para aí dizer que a segunda volta das eleições presidenciais vai ser disputada entre um candidato democrata e um candidato antidemocrata. Senhores deputados, qualquer candidato que receba o voto popular e que ganhe eleições tem legitimidade democrática, quer seja de Esquerda, quer seja de Direita", declarou.
Sobre o candidato mais votado no domingo, António José Seguro, ex-secretário-geral do PS e apoiado pelo seu partido, Paulo Núncio apelidou-o de "candidato socialista" e alegou que "foi humilhado durante anos pelo PS e, em particular, por muitos deputados socialistas que ainda hoje estão nesta bancada".
"Não obstante, o PS tenta convencer o país que teve uma vitória estrondosa na primeira volta. Não teve, senhores deputados. O PS não esteve no boletim de voto e o PS não ganhou rigorosamente nada. Tudo o resto é pura hipocrisia e puro oportunismo político do PS", sustentou.
Montenegro em silêncio "à espera dos votos do Chega"
Por sua vez, o Bloco de Esquerda sugeriu que o presidente do PSD e primeiro-ministro optou por uma posição neutral quanto à segunda volta das presidenciais porque espera os votos do Chega para aprovar o pacote laboral no Parlamento.
Também durante o debate quinzenal com o primeiro-ministro, na Assembleia da República, o deputado único do BE, Fabian Figueiredo, confrontou o chefe do Governo PSD/CDS-PP com esta sugestão, mas numa altura em que Luís Montenegro já não dispunha de tempo para lhe responder.
"A ministra do Trabalho disse esta manhã que o pacote laboral avançará independentemente do que aconteça na concertação social, por isso pergunto-lhe, senhor primeiro-ministro, se o seu problema em tomar uma posição na segunda volta entre um democrata e um autoritário é porque está à espera dos votos do Chega para aqui no parlamento impor o pacote laboral", questionou o deputado.
PAN desafia Montenegro a sair da "capa de neutralidade"
Por fim, a deputada única do PAN desafiou o primeiro-ministro a deixar "a capa neutralidade" em matéria de eleições presidenciais, com Montenegro a considerar que, neste debate quinzenal, foi acusado de "uma coisa e o seu contrário".
"Quando estamos a falar em escolher um candidato que neste momento representa os três Salazares, a política do populismo e da degradação das instituições e um candidato que efetivamente até pode garantir uma estabilidade democrática, o respeito pelas instituições e até mesmo a própria estabilidade governativa, eu não vejo bem onde é que está a dúvida", desafiou Inês Sousa Real.
Num tema que já tinha sido abordado por várias bancadas no debate quinzenal no Parlamento, a deputada única do PAN apelou a Montenegro a que, "a bem do país", saia da "capa da neutralidade", considerando que o "não é não" que disse ao Chega ameaça passar a "pronto, talvez".
Na resposta, Luís Montenegro considerou ter sido acusado no debate "de uma coisa e o seu contrário". "Eu já fui acusado de ter participado excessivamente na primeira volta da campanha eleitoral. A sra. deputada acabou de dizer que, nas últimas semanas, eu tenho sido muito neutral", afirmou, nada acrescentando sobre a posição que definiu na noite eleitoral e que passa por o PSD não declarar apoio político a nenhum dos dois candidatos que passaram à segunda volta, António José Seguro e André Ventura.
Leia Também: Montenegro admite "situações de dificuldade" no SNS, mas nega caos
Qual é a sua reação?
Gosto
0
Não gosto
0
Amor
0
Engraçado
0
Zangado
0
Triste
0
Wow
0

