O crepúsculo político de Cotrim? A suspeita que ensombra dias decisivos
A última semana de campanha para as eleições Presidenciais arrancou da pior forma para João Cotrim de Figueiredo, que, na segunda-feira, foi alvo de acusações que começaram nas redes sociais e que, três dias depois, já estão a caminho do tribunal.
Em causa está uma acusação de assédio sexual que visa o agora candidato a Belém, e que foi denunciada por parte de uma antiga assessora da Iniciativa Liberal.
As acusações contra Cotrim tornaram-se públicas depois de Inês Bichão as deixar escritas na rede social Instagram, através da funcionalidade "amigos chegados". A situação extrapolou este grupo restrito – e escolhido pela utilizadora –, tendo Inês Bichão, que hoje trabalha no Secretaria de Estado das Comunidades Portuguesas, explicado que o conteúdo "foi ilicitamente difundido" e sem o seu consentimento. Era "conteúdo de natureza privada, originalmente partilhado em contexto restrito e não público.”
Já Cotrim Figueiredo alertou que iria ainda hoje, quinta-feira, submeter uma "queixa-crime" por difamação contra Inês Bichão.
"Têm ideia do que fizeram à minha vida?", perguntou aos jornalistas, em Santo Tirso, no distrito do Porto, tecendo duras críticas à comunicação social pela forma como foi abordado no caso e dizendo-se vítima de "um brutal assassinato de carácter".
"Eu não sou jornalista, não tenho conhecimento do código deontológico. Fazerem-me aquela questão em público sem me consultarem previamente e sem consultarem o denunciante, é para mim uma forma de jornalismo que eu não entendi", disse, ainda que a sua comitiva tenha sido informada pelos jornalistas uma hora antes de ser questionado.
Denúncia terá sido feita em 2023: Mas como se chegou aqui?
Esta quinta-feira, Inês Bichão, advogada e consultora jurídica explicou, em comunicado enviado à agência Lusa, que "os factos em causa foram reportados em sede interna no decurso de 2023". Tendo em conta a altura em que esta situação se torna um dos temas da campanha, Inês Bichão falou também acerca do timing: "Essa divulgação está a ser instrumentalizada em contexto de campanha eleitoral, contra a minha vontade, no âmbito da qual não tive nem tenho qualquer intervenção."
Mais do que defender que a "instrumentalização" que está a ser feita acontece "contra a sua vontade", a antiga assessora do grupo parlamentar da IL dá ainda conta de que tem sido alvo de "ameaças e tentativas de intimidação". Acrescenta ainda a advogada que "a divulgação indevida de conteúdos privados, a exposição não consentida" do seu nome e da sua imagem e a as ameaças que referiu "configuram ilícitos juridicamente relevantes".
"Não pretendo alimentar esta polémica, mas não deixarei de exercer os meus direitos em sede própria, na qual a veracidade dos factos será apreciada nos quadros e com as garantias que o Estado de Direito assegura", conclui Inês Bichão, apontando que, nesta fase, esta é a única posição pública que vai assumir.
Posteriormente, a IL, agora liderada por Mariana Leitão, emitiu um comunicado negando a existência de qualquer queixa interna sobre alegados assédios levados a cabo por Cotrim. "É completamente falso que tenha havido qualquer queixa interna ou reporte, formal ou informal, sobre o candidato presidencial João Cotrim Figueiredo", adiantou à Lusa o partido, após ser questionado sobre tinha conhecimento de alguma denúncia.
No comunicado, a IL vincou ainda rejeitar "visceralmente uma campanha suja que lança acusações muito graves sem qualquer evidência ou prova".
Este comunicado é a única reação oficial de Mariana Leitão.
"Uma jovem veio ter connosco. Ontem soubemos o nome dessa mulher: É Inês Bichão"
Já na terça-feira, um dia após as acusações, que Cotrim negou desde o início, as autoras do livro "Me Too - Um Segredo Muito Público. Assédio sexual em Portugal" recorreram às redes sociais para falar sobre um episódio que se passou na última edição da Feira do Livro de Lisboa.
"No dia 13 de junho de 2024, quando apresentámos o nosso livro 'Me Too, Um Segredo Muito Público. Assédio Sexual em Portugal' na Feira do Livro de Lisboa, uma mulher jovem veio ter com uma de nós e contou como estava a passar uma fase difícil da sua vida devido às situações de assédio sexual de que era alvo por alguém muito influente na IL", lê-se numa publicação assinada pelas quatro autoras: Júlia Garraio, Maria João Faustino, Rita Santos e Sílvia Roque.
"Ontem [segunda-feira] soubemos o nome dessa mulher quando a sua fotografia surgiu na comunicação social. Essa jovem mulher era Inês Bichão", acrescenta.
Veja a publicação abaixo na íntegra:
Ao Diário de Notícias, a especialista em apoio à vítima que ouviu o testemunho, e que não se identifica, explicou o que ouviu da ex-assessora: "Disse-me que tinha passado por uma situação daquelas, de assédio, que tinha sido assessora no parlamento, o nome de quem a tinha assediado e que toda a gente sabia no grupo parlamentar".
O que diziam as mensagens publicadas nos "amigos chegados"?
O Notícias ao Minuto teve acesso à publicação na qual a ex-assessora diz que foi um "desafio" trabalhar com Cotrim de Figueiredo "a vários níveis".
"Nunca vou esquecer das várias vezes em que bloqueei quando me disse 'excelente trabalho, só falta abrires as pernas comigo', 'de que tipo de homens gostas?', 'mais grossa ou mais comprida?'", lia-se nas mensagens.
"Não vou esquecer do que acontece às pessoas que não fazem o que ele quer ou que pensam diferente de si. E dos telefonemas que faz logo a seguir para minar propostas de trabalho", acrescentou.
"Que me acuse daquilo que ele quiser, se tiver ponta por onde pegar; calada estive eu e assim vou continuar, porque não merece que a minha vida seja prejudicada por aquilo que ele fez. Não suporto a ideia de o ver em Belém", era ainda decsrito.
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