"Nunca tivemos tanto acesso a conhecimento e a ciência tão desacreditada"
"Há uma certa ilusão das pessoas, mesmo nos debates que vou fazendo sobre este tema", em "dizerem: não, eu não sou apenas confrontado com os políticos de que eu gosto, não é verdade que eu esteja a ficar encapsulado numa bolha porque eu passo a vida a ver conteúdos do outro lado político", relata o autor do livro Algoritmocracia, que vai para a segunda edição.
Esses conteúdos do outro lado político são sensatos, razoáveis ou verdadeiros disparates, questiona o sócio da área de Direito Público na Pérez-Llorca.
"Estarmos numa bolha não significa ouvirmos apenas os políticos de quem gostamos e do nosso lado político, significa também ouvir o lado mais caricatural (...), o lado mais radical do outro lado político de tal forma que nós vamos construindo a imagem do outro lado quase como se fosse ilegítimo, porque ele diz tantos disparates que é impossível alguém normal estar a defender uma coisa daquelas", refere.
Segundo Adolfo Mesquita Nunes, "as pessoas muitas das vezes não têm a noção de que a bolha não é ver sempre conteúdos homogéneos".
A bolha "é estar agrupando conjuntos de pessoas que são ressentidas, que têm medo ou que têm determinado tipo de sensações com os mesmos temas", diz o ex-secretário de Estado.
E aqui entra a IA, "porque os algoritmos, com o conhecimento que vão tendo de nós" - porque quanto mais tempo 'online' mais dados obtêm - vão fazendo "milhões de correlações".
"Fazer correlações estatísticas e dizer se esta pessoa gosta de ver vídeos sobre alimentação saudável, vai gostar de ver, se calhar, vídeos sobre os malefícios de determinado tipo de químicos e, se vai gostar de ver vídeos sobre determinados malefícios de químicos, vai gostar de ver vídeos sobre medicinas naturais e desconfiança relativamente à ciência e aos medicamentos", exemplifica.
Ora, se vai gostar de ver vídeos sobre alimentação saudável, "pode, estatisticamente, por causa das correlações dos algoritmos - e há estudos que os demonstram - fazer-nos começar a chegar a conteúdos que nós nunca pedimos, mas que vão moldar a nossa opinião".
Por isso é "que é hoje notório que há um certo retrocesso na forma e na relação que temos com a ciência", considera Adolfo Mesquita Nunes.
"Nunca tivemos tanto acesso a conhecimento e a ciência hoje tão facilmente desacreditada", lamenta, apontando que "um 'influencer' contra as vacinas tem mais voz, ou a mesma, que um médico que explica os efeitos secundários, mas também os efeitos vantajosos das vacinas".
Torna-se "preocupante quando mentira e verdade circulam lado a lado ou quando o próprio ecossistema algorítmico promove a mentira", adverte.
Mas tal não acontece porque o algoritmo sabe que aquilo é mentira, até porque não é uma pessoa e não tem essa capacidade.
"Apenas limita-se a ver que aquele conteúdo tem mais cliques e, portanto, continua a promovê-lo", explica.
Ora, "se a mentira, ou a descontextualização, ou a meia verdade for mais sumarenta, é essa que o algoritmo vai privilegiar, não sabendo que é uma mentira, apenas porque é aquela que está a ter mais 'reach' [alcance]", sintetiza Adolfo Mesquita Nunes.
Quanto à regulação que existe atualmente na União Europeia, não entra neste capítulo, "entra em muitos outros onde é importante que entre, [mas] não entra aqui".
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