"Não podemos pôr carro à frente dos bois". As reações ao 1.º relatório
Depois de o Gabinete de Prevenção e Investigação de Acidentes com Aeronaves e de Acidentes Ferroviários (GPIAAF) ter revelado, no sábado, um primeiro relatório sobre o acidente do elevador da Glória, em Lisboa, já várias figuras políticas se pronunciaram. Desde o Presidente da República a candidatos a Belém e líderes partidários, todos parecem concordar que é prematuro tirar conclusões e pedem que se investigue para apurar responsabilidades.
Em declarações aos jornalistas à saída do cemitério do Alto de São João, após o funeral de uma das vítimas mortais do descarrilamento, Marcelo Rebelo de Sousa pediu celeridade às autoridades responsáveis pelo relatório final sobre o acidente e agradeceu as primeiras conclusões preliminares conhecidas no sábado.
O Presidente recordou que o próximo relatório "está prometido para daqui a 45 dias" e que o documento definitivo só deverá ser conhecido dentro de um ano. "Se fosse possível abreviar estes prazos, sobretudo do relatório definitivo, todos agradeceríamos", apelou o Presidente.
O chefe de Estado comentou as conclusões do primeiro relatório, "ainda muito preliminar", do GPIAAF, e destacou ainda aquilo que considera serem as principais dúvidas e pistas deixadas no documento, nomeadamente o que motivou que o cabo que unia as duas cabinas do elevador se soltasse e por que não funcionou a redundância, para permitir a travagem.
As primeiras conclusões - notou ainda - deixam antever que a inspeção visual não permitiu detetar o problema no cabo e permitem ainda questionar "porque não há uma instituição encarregada de fiscalizar este tipo de matérias".
O Presidente assinalou ainda que, "com os elementos disponíveis, não é possível determinar a responsabilidade de pessoas nem de organizações reativamente ao que aconteceu, nesta fase".
Por isso, "é preciso aguardar pelo relatório prometido para daqui a 45 dias", que Marcelo Rebelo de Sousa gostava que fosse apresentado mais cedo. "Teremos de esperar por essa altura", sublinhou.
O Presidente da República afirmou ainda que o autarca de Lisboa, Carlos Moedas, tem "responsabilidade política" sobre o mortal acidente, mas considera que não faz sentido falar em demissão a um mês de eleições.
"Vamos esperar e depois assumir responsabilidades"
Após ser conhecido o relatório, o candidato presidencial Luís Marques Mendes também se pronunciou e considerou que devem ser apuradas todas as responsabilidades, mas considerou precipitado falar em demissões, e destacou a "atitude responsável" do PS porque, ao evitarem entrar na querela das demissões, estão a dar um sinal de exigência na mesma, mas de maturidade e de sentido de responsabilidade".
"Nós não podemos pôr o carro à frente dos bois. Responsabilidades, apurá-las todas, as técnicas e as políticas, mas fazê-lo com o rigor que as coisas exigem. Ainda ninguém sabe exatamente porque é que aconteceu aquele acidente gravíssimo, aquela tragédia. Vamos esperar e depois assumir responsabilidades", afirmou, quando questionado se os responsáveis políticos se devem demitir, em declarações aos jornalistas em Peniche.
Considerou que o "Estado voltou a falhar", mas "falta saber é o que é que falhou em concreto", e disse que é preciso aguardar pelo inquérito que deve ser feito "com tranquilidade e com rigor", mas "num prazo razoável"
"Tem de haver um apuramento rigoroso das responsabilidades"
A mesma posição partilhou o candidato presidencial António José Seguro, que hoje defendeu o "apuramento rigoroso" de todas as responsabilidades na sequência do acidente.
"Tem de haver um apuramento rigoroso das responsabilidades técnicas, de gestão, políticas, as que houver. Tem de haver a garantia de que não se volta a esta situação, mas tem de haver respostas a estas perguntas. Os portugueses, os lisboetas, merecem a resposta cabal às perguntas que acabei de fazer e outras que, naturalmente, estão a ser feitas", afirmou o antigo líder socialista, também em Peniche.
António José Seguro questionou: "Aquela zona que não faz parte da inspeção diária, é inspecionada por quem? Com que periodicidade? Qual foi a última vez que ela foi inspecionada? De quem é a responsabilidade? Mais, também hoje veio a público que o sistema de travões não funcionou, nem poderia funcionar. Mas não poderia funcionar porquê? Só agora é que se chegou a essa conclusão?".
Assim, pediu urgência e rigor nas respostas, defendendo que "os portugueses merecem transparência". Questionado se os responsáveis políticos se devem demitir, António José Seguro considerou que essa é uma questão para os partidos.
Ontem, ainda antes de ser conhecido o relatório, o candidato presidencial Henrique Gouveia e Melo tinha defendido "uma responsabilização" na sequência do acidente, mas recusou uma "caça às bruxas". Também o candidato presidencial liberal João Cotrim de Figueiredo havia considerado que o vereador com o pelouro da Carris deve ser afastado caso se conclua que o acidente resultou das opções políticas da Câmara de Lisboa.
E o que dizem os líderes partidários?
O secretário-geral do PS, José Luís Carneiro, defendeu este domingo que tem de haver um tempo para "apurar responsabilidades" considerou que o grande escrutínio político sobre a tragédia vai ser feita nas eleições autárquicas de 12 de outubro.
"Há em curso investigações. Investigações desde logo das autoridades que superintendem estes serviços, mas há também em curso - aliás como é normal -, a investigação desenvolvida pelo próprio Ministério Público e é necessário aguardar por essas investigações", admitiu.
Questionado pelos jornalistas sobre se o presidente da Câmara de Lisboa, Carlos Moedas, devia ou não demitir-se, José Luís Carneiro disse que o seu "parecer é aquele que tem de ver com respeito pelo escrutínio daqueles que têm uma eleição própria para fazer o escrutínio do seu presidente da Câmara Municipal de Lisboa".
"Naturalmente que o escrutínio tem de ser feito. A partir de agora, em termos de sede de vereação municipal e também da candidata à Câmara Municipal [Alexandra Leitão], de realizarem esse escrutínio. Mas é um escrutínio que vai ser feito no dia 12 de outubro. Esse é mesmo o grande escrutínio político", disse.
Os restantes escrutínios, "de natureza civil, de natureza criminal", serão realizados por "outras entidades que o realizam (...) à luz da lei", declarou José Luís Carneiro.
A líder da Iniciativa Liberal, Mariana Leitão, também já se pronunciou e reiterou que é "prematuro tirar grandes conclusões" sobre o acidente, rejeitando que esta prudência se prenda com a proximidade das eleições autárquicas.
"Acho que é prudente aguardarmos pelas conclusões das investigações, das perícias, para sabermos exatamente o que é que se passou, sabendo as causas para poder prevenir tragédias futuras. As investigações têm de chegar a conclusões. Neste primeiro relatório preliminar já vi alguns dos detalhes, mas não são ainda suficientes para se tirar conclusões objetivas e o próprio relatório diz exatamente isso", disse Mariana Leitão.
Mariana Leitão rejeitou "fazer aproveitamento político" sobre o acidente. "Devemos ter bom senso nestas questões, aguardar pelas conclusões das investigações e depois, sim, tirar conclusões, tomarmos posicionamentos e obviamente exigirmos responsabilidades de quem tiver de prestar essas responsabilidades", insistiu.
Ainda questionada sobre as declarações do ex-líder do PS Pedro Nuno Santos que no sábado pediu a demissão do atual presidente da autarquia lisboeta, Carlos Moedas, a líder da IL repetiu a ideia de o tempo atual é de "pesar, solidariedade e prudência".
"Os factos atuais não são suficientes, nós não sabemos exatamente o que é que causou o acidente, também não sabemos que questões podem ter originado este acidente, mesmo em questão de decisões políticas ou outras, técnicas, manutenções, o que quer que seja, e portanto devemos aguardar", disse.
O elevador da Glória, em Lisboa, descarrilou na quarta-feira, causando 16 mortos e 22 feridos.
O equipamento é gerido pela Carris, liga os Restauradores ao Jardim de São Pedro de Alcântara, no Bairro Alto, num percurso de 276 metros e é muito procurado por turistas.
O relatório preliminar do GPIAAF aponta que o "cabo que unia as duas cabinas cedeu" e que o guarda-freio acionou os travões com o objetivo de "tentar suster o movimento", mas essas ações não surtiram efeito e a carruagem continuou em aceleração até se descarrilar.
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