"Não era preciso um Salazar, eram precisos três para pôr o país na ordem"
No âmbito da sua candidatura à Presidência da República, André Ventura, esteve, na noite desta sexta-feira, em entrevista na antena da SIC/SIC Notícias, onde partilhou as suas aspirações para o resultado do escrutínio, que modelo de chefe de Estado pretende ser e que país pretende construir, caso seja escolhido para ser o novo ocupante do Palácio de Belém, já em janeiro.
Questionado sobre porque é que os portugueses devem votar em si, recordando que anteriormente desejava ser primeiro-ministro, o presidente do Chega, começou por dizer que "a política nem sempre é sobre o que nós queremos".
"Às vezes é sobre o que o país precisa. Nunca vi a política como alguma coisa de que eu precisasse, mas sim como um sentido de missão", explicou, recorrendo "a Ramalho Eanes que dizia que 'a política tem de ser missão e não benefício'".
André Ventura assume que não desejava fazer a candidatura à Presidência, mas que "o Estado do país" e as restantes "candidaturas apresentadas", motivaram a que, em conjunto com o Chega, tivessem concluído que não se sentiam representados.
"Não havia um único candidato que representasse o país e o sistema. O único candidato que se apresentava para transformar, levou para a candidatura os 'Isaltinos' e os 'Rui Rios', que na verdade são o pior que o sistema tem. Portanto, deixou de existir uma candidatura que fosse antissistema e quando é assim, nós, na vida, temos de avançar", explicou, aludindo à candidatura do almirante Henrique Gouveia e Melo.
Ventura diz ainda que vê "um Presidente como um condutor do país, alguém que guia o país" e que, "neste momento, o país vai em contramão e à velocidade errada e baixa, estamos com tudo errado".
Temos mais bandidos à solta do que na cadeia. Temos políticos que foram condenados por corrupção a serem presidentes de câmara, ministros, a receber pensões vitalícias... É o bar aberto da República
Quarta República e "três Salazares"
Sobre uma eventual Quarta República, que tem vindo a dizer querer estabelecer, e sobre se se trata de um símbolo ou se pretende forçar uma rotura fora dos mecanismos democráticos (como seria o caso de um golpe de Estado para uma mudança de regime), o candidato presidencial atira: "Sou um democrata, mas há alturas em que é preciso admitir que o país está podre".
"Há uma epidemia de corrupção em Portugal e quando é assim dizemos 'ai mas os mecanismos constitucionais...' Mas que mecanismos constitucionais? Isto está podre de corrupção! Precisamos de outro regime, não é uma questão retórica", sublinha.
Para o atual líder da oposição, não é possível combater a corrupção no atual regime: "Temos mais bandidos à solta do que na cadeia. Temos políticos que foram condenados por corrupção a serem presidentes de câmara, ministros, a receber pensões vitalícias... É o bar aberto da República".
Ventura chamou ainda à conversa o caso da morte de Odair Moniz para referir que "está toda a gente muito preocupada porque a polícia agrediu um cidadão de uma minoria, mas não se preocupam com os polícias que todos os dias são agredidos nesses bairros".
"Não era preciso um Salazar, eram precisos três Salazares para pôr isto na ordem", disse, de forma a ilustrar o quanto considera que "o país está podre de corrupção, impunidade e bandidagem".
Como Presidente da República, Ventura defende que não pretende ser um "corta-fitas" ou um "agente de marketing". "No sistema que temos, o Presidente tende a fazer aqueles freios e contrapesos, mas tem de ser direto. Eu candidato-me para pôr o país na ordem", prometeu.
"Se eu fosse Presidente da República diria à Justiça que tem de atuar. A separação de poderes existe, mas o que não pode acontecer é os coitadinhos e os privilegiados de sempre terem uma justiça favorável, e os cidadãos comuns sentirem que a justiça lhes cai sempre em cima. Isto é papel de um Presidente da República", descreve.
Presidente da República e... presidente do Chega
Questionado sobre como pretende garantir que, se for eleito, não haverá confusão entre os dois papéis, sobretudo porque não declarou independência do partido aquando da candidatura, André Ventura considera que ele próprio "é parte dos valores que o Chega tem", mas que pode "moldar a República" no papel de Presidente, sem comprometer a independência.
"Neste momento em Portugal, poucas palavras têm tanta expressão como as do Presidente da República. Se o Presidente disser ao Governo que tem de ser intolerante à epidemia de corrupção, o Governo vai ter de ter atenção a isso. O Presidente só pela sua atuação pode definir o caráter da República", elaborou, exemplificando: "Quando houve tumultos no Bairro da Jamaica, o Presidente da República [Marcelo Rebelo de Sousa] decidiu ir ao local e começar por visitar aqueles que começaram os tumultos e não as forças policiais - isto dá um sinal, e um sinal de como, sem decreto, um Presidente pode moldar a República".
Sobre que tipo de Presidente da República pretende ser - de união ou divisivo - Ventura considera que "unir é conversa da treta". Garantiu, no entanto, que será "intolerante à corrupção e à imigração descontrolada" e que a utilização do veto dependerá do "tipo de Governo" que estiver em funções.
Recorde-se que na corrida a Belém os outros candidatos já confirmados são, entre eles o almirante Henrique Gouveia e Melo, Luís Marques Mendes, António José Seguro, António Filipe, Catarina Martins, Joana Amaral Dias, João Cotrim de Figueiredo e André Pestana.
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