Do Benfica ao segredo arrepiante: "Foi a maior vitória da minha vida"

Janeiro 2, 2026 - 10:00
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Do Benfica ao segredo arrepiante: "Foi a maior vitória da minha vida"

Bruno Martins Simão já tinha dado que falar no mundo do futebol, ora em tom discreto, ora com contornos trágicos, mas o seu nome voltou a elevar-se no panorama mediática, desta vez à parte do desporto, fruto da sua participação na mais recente edição do "Secret Story".

 

Em entrevista exclusiva ao Desporto ao Minuto, Bruno Simão aceitou ser o sétimo convidado da rubrica 'Eu "show" de bola' (lançada na primeira semana de cada mês), em que se pretende perceber melhor o que faz alguém 'viajar' do desporto para o mundo do entretenimento. E que longa viagem...

Com formação no Benfica, o antigo defesa viu o seu irmão David Simão singrar na I Liga, onde também pretendia jogar, mas acabou por fazer uma boa parte da sua carreira no estrangeiro, em campeonatos europeus mais periféricos como Roménia, Eslováquia, Moldávia, Azerbaijão, Chipre, até que deu o seu regresso a Portugal, com uma passagem pela quarta divisão de França pelo meio.

Foi precisamente após essa aventura francesa que, ainda a saborear a estreia no Pinhalnovense, atravessou o momento mais complexo da sua vida, ao sofrer um acidente de viação em janeiro de 2018. Esteve entre a vida e a morte, "segredo" que defendeu no programa da TVI, sendo que lhe valeu a superação para voltar aos relvados, com Ruben Amorim à mistura, nos tempos do Casa Pia. 

Afinal, o que motiva alguém apaixonado pelo desporto a 'abraçar' o ramo do entretenimento a certa altura da sua vida? É o próprio Bruno Simão que nos explica.

A mentalidade do Benfica foi sempre muito a de apostar em atletas de porte físico, mais altos, mais fortes fisicamente. Não era o meu caso, nem o do Ruben Amorim.Deu os primeiros passos na formação do Benfica, onde esteve seis anos, entre 1994 e 2000. O que lhe faltou para se poder afirmar nas águias?

Comecei no Benfica desde muito novo, com oito anos, mas penso que foi devido à minha estrutura física. Eu era muito pequenino. A minha primeira saída do Benfica, na transição de infantis para iniciados, aconteceu quando Vale e Azevedo, na altura presidente, acabou com as equipas B. A mentalidade do Benfica foi sempre muito a de apostar em atletas de porte físico, mais altos, mais fortes fisicamente. Não era o meu caso, nem o do Ruben Amorim, o meu compadre. Saímos na mesma altura. Eu acabei por voltar por duas vezes para o Benfica. Aí o Amorim já não voltou. Lembro-me que voltei em 2004/2005, após passagens por outros clubes, como AD Oeiras, Estoril e Belenenses. Creio que, na minha geração, nenhum dos atletas da formação chegou a singrar no Benfica. As apostas [na formação] não aconteciam.

Só depois é que se mudou a mentalidade e a filosofia da presidência do Benfica e da equipa sénior. Já foram dando algumas oportunidades, um bom tempo depois de eu ter saído do Benfica. Quando eu estava na equipa B, já como sénior, apenas Manuel Fernandes e João Pereira foram para a equipa principal, salvo erro. De resto, da minha formação, lembro-me do João Vilela, que acabou por não conseguir pegar de estaca, no Benfica. Acabou por sair. É como digo, foi por falta de oportunidade... Não era por falta de qualidade. Quando fui para o Belenenses comecei a ser internacional [nas camadas jovens de Portugal] e foram os meus melhores anos de formação. No Benfica, o problema, se é que lhe posso chamar isso, foi falta de oportunidades nas camadas jovens, que não eram aposta de todo, na minha altura.

Notícias ao Minuto Bruno Simão cumpriu internacionalizações pelas camadas jovens de Portugal, mas nunca chegou a representar a principal seleção das quinas.© Sindicato dos Jogadores  

Entre 2007 e 2013, aventurou-se no estrangeiro e passou por cinco países distintos (Roménia, Eslováquia, Moldávia, Azerbaijão e Chipre). Sentia que era no estrangeiro que podia ter a oportunidade que não estava a ter em Portugal?

Sim, claramente… Quando o empresário me disse que tinha uma proposta para mim, para a Roménia, eu tinha 21 anos e eu nem ouvia falar nada do país. Nessa altura, começou a haver uma vaga de portugueses a ir para a Roménia. Fiquei um pouco apático, mas, aqui, tinha as portas fechadas, por não ser aposta e, infelizmente, por alguns erros meus fora do futebol, que não me deixaram prosseguir a carreira em Portugal da forma como deveria e esperaria. Fez parte da minha carreira. Aí, não fui profissional a 100%. Excedia-me a nível de noites. Tenho uma mágoa por nunca me ter estreado na I Liga. Fui convocado para a Taça de Portugal e para o campeonato, no Belenenses. Estive na iminência de me estrear contra o FC Porto. Acabou por ser o Gonçalo Brandão a consegui-lo. Até falámos com o psicólogo e tudo para nos prepararmos para o jogo, mas já havia ali um direito de opção sobre ele e sobre o Ruben Amorim. Éramos juniores e já fazíamos parte do plantel sénior, a par do Rolando, que acabou por ir para o FC Porto. Não tive essa felicidade, mas fui para o estrangeiro e joguei sempre em equipas grandes nos países por onde passei.

Conquistei títulos, fui acarinhado e fui reconhecido enquanto jogador. Não me arrependo. Tenho grandes memórias, mas não correu tudo bem, infelizmente. A nível financeiro, não vi seriedade na maior parte dos clubes por onde passei, mas, mesmo assim, gostei muito da minha passagem pelo estrangeiro. Lembro-me que, antes de ir para a Roménia, estive seis meses na II Liga, no Barreirense. Até hoje, ainda estou para perceber o motivo por que o mister Rui Bento não me tenha dado uma oportunidade quando eu era o jogador com mais minutos. Era sempre titular e na pré-época tinha jogado a um nível muito alto, mesmo contra Benfica e Sporting. Era elogiado e diziam-me que eu ia ser o próximo lateral-esquerdo da seleção, mas depois de uma expulsão contra o Varzim nunca mais fui convocado. Em dezembro, pedi para sair.

Enquanto estava no estrangeiro, o seu irmão David Simão ia tendo oportunidades no Benfica. Sentia-se orgulhoso e simultaneamente desiludido consigo próprio por não ter tido as mesmas oportunidades?

Senti-me sempre muito mais orgulhoso e feliz do que a mágoa que tinha por não ter tido essa oportunidade. Todos sabem que ele é o meu ídolo. Tenho uma mágoa muito grande, se calhar, até maior do que aquele que tem, por ele não ter singrado no Benfica. O André Gomes conseguiu, quando havia uma necessidade de médios. Já o meu irmão, tinha pela frente médios como [Pablo] Aimar, Javi García, Witsel e Carlos Martins. Era mais complicado. O meu caso e o dele [no Benfica] foram completamente diferentes. Na altura dele, já iam dando oportunidades aos jovem. Eu fiquei bem ciente de que também fui culpado pela minha curta passagem no futebol português. Não consegui singrar no Benfica, o meu clube do coração, mas é o que é. É futebol. Há que seguir em frente.

 Estava  a sair de um restaurante [na Roménia] e tive uma espera de alguns adeptos. As coisas acabaram por correr bem, mas foi um momento apertado quando os vi todos em cima do carro (...) O cenário era mesmo de terror.Presenciou alguma situação tensa na sua passagem pelo estrangeiro?

No Dinamo Bucareste, estávamos em primeiro a cinco jornadas do fim e acabámos em terceiro, após termos perdido três jogos consecutivos. A dada altura, houve uma invasão ao complexo. Por sorte, tendo amigos que faziam parte da claque, recebi uma chamada a dizer 'Olha, aconselho-lhe a não ires treinar hoje porque está mobilizada uma turma para vos dar um aperto. São uns 100 ou 200 adeptos'. Os jogos não estavam a correr bem, o campeonato estava a fugir e houve essa invasão. No antepenúltimo jogo fui expulso com uma arbitragem muito duvidosa. Não estive no jogo seguinte e aí houve mesmo uma invasão de campo. Na rua, também era complicado. Se fôssemos visto num shopping…

Nesse ano, após a perda de campeonato, acabei por não receber o último mês de salário. O presidente falou comigo, aos gritos, a dizer para ir embora que não iria pagar mais nenhum testão. Não estive presente na invasão ao complexo e na invasão de campo, graças a Deus, mas ainda me deparei com adeptos a saltar para cima do carro, no dia da final da Liga dos Campeões [27 de maio de 2009], entre Barcelona e Manchester United, com Messi contra Cristiano Ronaldo. Ia a sair do restaurante e tive uma espera de alguns adeptos. As coisas acabaram por correr bem, mas foi um momento apertado quando os vi todos em cima do carro. Passei por estes episódios não só no Dinamo Bucaresti, como no primeiro clube da Roménia onde estive, no UTA Arad. Quando descemos de divisão, tínhamos de fugir e sair às escondidas, de taxi, pelas traseiras do estádio. Caso contrário, era um inferno.

O que passa pela cabeça de um jogador em momentos que mais parecem um cenário de terror?

O cenário era mesmo de terror… Acabou por correr bem. Não procurei, mas tinha pessoas influentes lá que me deixaram à vontade para contactar logo em algum dia em que tivesse algum momento de maior perigo. Se tivesse algum percalço ou algo assim… Nunca nos sentimos 100% em segurança. Os adeptos romenos são fervorosos. Uma coisa que adorei foi ter visto os adeptos a puxar pela equipa durante os 90 minutos em todos os jogos. É demais. Quando as coisas não correm bem, é complicado e já é o reverso da medalha.

Durante a participação no "Secret Story", houve uma frase polémica proferida por si ["Já matei dois gajos na Roménia"]. Quer explicar?

Isso foi uma brincadeira [risos]. É uma coisa que digo cá fora. Por acaso falei na Roménia... Quando alguém muito próximo me está a chatear, sendo que ali [no programa] já tinha alguma intimidade, digo algo como 'Cuidado, por 50 cêntimos que me ficaram a dever na Roménia, já matei dois gajos'. Quem quiser e tiver essa curiosidade, pode obter isso na Roménia. Nunca saiu nada… Se fosse um assassino, como quiseram fazer parecer depois dessa frase, nunca teriam entrado neste Secret Story, nem tinha vontade de regressar à Roménia, de onde já tenho saudades.

Tenho pena de já ter 40 anos porque gostava de lá voltar a jogar. Dos países por onde passei, foi efetivamente o que eu mais gostei. Falo fluentemente romeno como falo português. Mudei muito a minha opinião em relação ao povo romeno. Quando fui tinha uma determinada ideia… Infelizmente, é a ideia de muitas pessoas que ainda não conheceram a Roménia, que tem sítios lindíssimos. As pessoas não são aquilo que nós pensamos. Há aqueles romenos que vêm para cá e acabam por denegrir um pouco a imagem do povo romeno. Nunca matei ninguém, nem estive perto de morrer, nem estive perto de matar...

Era dos jogadores com mais minutos, estava em claro destaque naquela equipa, mas acabaram por me 'cortar as pernas' e não tive a oportunidade de jogar na I Liga.

O regresso a Portugal, pela porta do União de Leiria, aconteceu com a expectativa de cumprir o sonho de jogar na I Liga? Ou já não acreditava nisso?

Eu acreditava… Estava muito visto na Moldávia, onde já tinha conquistado troféus. Recebi uma chamada de um empresário a perguntar se eu queria voltar para Portugal. Eu estava ansioso, mas infelizmente já tinha tido uma chamada semelhante há uns anos, por parte de um empresário mentiroso. Maior parte é assim. Pessoas pouco sérias… Tive o prazer de trabalhar com uns [empresários] sérios, mas também tive a infelicidade de me cruzar com outros que não lembram a ninguém. Na altura, o Beira-Mar estava na I Liga e eu estava todo contente, até estava de férias em Portugal. Disse à minha ex-mulher na altura que ia voltar para Portugal, para a I Liga. Era para arrancar no dia a seguir, mas depois nunca mais ouvi falar desse empresário. Quando este me ligou, fiquei a pensar se era mais um a enganar-me. Eu nem ouvi o clube. Disse logo 'Quero, quero'. Perguntou-me se eu não queria saber qual o clube. Queria, mas queria voltar para Portugal. Eu não estava a par sequer da situação da União de Leiria, que não tinha SAD e ia tentar disputar o playoff de subida à II Liga. Apesar de estar na situação que estava, não deixava de ser uma equipa com história na I Liga. Perguntou-me se eu não queria saber dos valores. Não queria saber.

Queria ir, disse que ia falar com o meu presidente [do Dacia] e disse que a mãe da minha filha tinha feito um ultimato. Inventei uma grande história a dar conta de que se eu não voltasse para Portugal, ela fugia com a minha filha. O presidente ficou sensibilizado. Senti-me mal, mas a vontade de ir para Portugal era muita. Deixou-me as portas abertas, disse-me que eu podia estar lá uma ou duas semanas para resolver as coisas. Acabei por ir para Leiria, onde tive dos melhores grupos de trabalho na minha carreira. Foram bastantes, mas aquele foi espetacular, com pessoas que trabalhavam e jogavam. Foi fantástico. Estivemos pertíssimo de ir ao playoff de subida à II Liga, mas falhámos mesmo no final. Aí voltei a ter alguém a dizer-me que tinha duas equipas atentas de II Liga, mas nunca apareceram as propostas. Apareceu o Mafra, com o Jorge Simão a treinador. Tinha feito jogos muito bons contra eles, que me ligaram a dizer para ir para lá. Disse que tinha de esperar por causa das supostas propostas da II Liga. Tanta pressão fizeram que eu fui assinar com o Mafra, com a condicionante de que recebesse algum telefonema deixar-me-iam sair.

Dois dias depois, recebi uma chamada do diretor desportivo da Oliveirense, que nem era nenhuma das duas propostas. Lá fui eu para a II Liga. Fiz o meu melhor ano em Portugal, possivelmente, com 40 jogos entre Taça de Portugal, Taça da Liga e campeonato. Fui várias vezes considerado o melhor em campo, entre golos e assistências. Foi aí que tive propostas da I Liga, para ir para a Académica, mas o meu ex-presidente não me deixou sair. Foi falar mal de mim. O meu empresário ligou-me a dizer 'Bruno, tens de ir para cima do teu presidente. Ele acabou de te tramar. As coisas estavam avançadas para ires para a Académica, mas ele falou com a Académica a dizer que eras um craque, mas também uma craque no balneário'. Se há coisa que sou é o oposto. Nos balneários por onde passei, ainda tenho pessoas a dizer que têm saudades de ter pessoas como eu, que eu era a animação… 

Tive outras propostas para ir para Itália e também não me deixou sair. Depois tivemos um jogo com o União da Madeira, do falecido Vítor Oliveira, em que fui considerado o melhor em campo. Fiz a assistência para os dois golos do empate (2-2) em Oliveira de Azeméis. Foram falar com o meu presidente para contarem comigo na época seguinte, sendo que acabaram por subir à I Liga, mas ele não me deixou sair novamente. Era dos jogadores com mais minutos, estava em claro destaque naquela equipa, mas acabaram por me 'cortar as pernas' e não tive a oportunidade de jogar na I Liga. Nesse ano estive muito acima da média. Sentia-me a voar… Acabei por ir novamente para a União de Leiria, já com a SAD. Tinha uma proposta para ir para o Atlético, na II Liga, em vez de ir para o Campeonato de Portugal. Só que tinha recebido uma chamada de um grande amigo, que está atualmente na Oliveirense, o Nuno Cata, que antes era diretor da União de Leiria. Queriam fazer um plantel para subir com jogadores de I e II Liga. Eu seria a primeira cara que eles iriam apresentar. Até tive jogadores a ligar para mim a perguntar se eu ia mesmo para lá. Aceitei o projeto, ofereceram-me condições muito boas e já tinha sido bem recebido antes. A meio do ano, acabei por sair porque não me dei muito bem com o treinador Jorge Casquilha, rumo ao Atlético, sendo que acabámos por descer. Quando passei a andar mais tempo pelo Campeonato de Portugal, já não pensei que pudesse chegar à I Liga. Não aconteceu e continuei a trabalhar.

Acidente? Só me recordo do impacto e do choque da notícia de não voltar a poder jogar futebol. Aí tiraram-me o tapete. Desabou tudo.Nessa fase, aconteceu o tal dramático acidente, após a estreia no Pinhalnovense. O que lhe passou pela cabeça naqueles dias em que esteve em coma?

Não me lembro de nada quase… Passei 22 dias no hospital e só me recordo de cerca de uma semana. Não tenho memória do acidente. Não sei como aconteceu. Não tenho memória sequer de subir para a mota e de estar no hospital. Foram episódios que me foram contando… Lembro-me da infeliz notícia de ficar inapto para a prática desportiva. Lembro-me dessa conversa com o doutor, de uma ou outra visita, mas não muito mais. Só me recordo do impacto e do choque da notícia de não voltar a poder jogar futebol. Aí tiraram-me o tapete. Desabou tudo. O futebol faz parte da minha vida. Continua a fazer parte, agora mais como adepto. Ainda no ano passado jogava em divisões mais baixas. Não poder despedir-me das pessoas e dos relvados, da forma que eu imaginava que iria ser…

Com ou sem acidente, não estava preparado para deixar o futebol, embora já não estivesse numa fase ascendente. Custou-me muito, muito, muito. Só chorava e perguntava "Porquê?". Ali fui abaixo, mas comecei a dar a voltar mentalmente. Ainda no hospital, recordo-me de ver uma mensagem de força da minha filha mais velha, a dar-me apoio. Aí eu disse 'Vou ter de conseguir'. Fui para casa e ainda estive acamado durante pouco mais de um mês. Não conseguia fazer nada, mas depois tive a ajuda do fisioterapeuta do Pinhalnovense. Só lá estive uma semana, mas ele abriu-me portas para a recuperação na clínica dele. Veio até minha casa e explicou-me alguns exercícios. No dia em que eu consegui fazer, sem dor, um dos exercícios que me prescreveu, aí foi mesmo o clique. Não sabia se e onde iria jogar, mas tinha de ir à luta. Pensei 'Pelo menos vou à luta, não vou baixar os baraços, seja o que Deus quiser'.

Foi passo a passo, até chegar ao Casa Pia, onde encontrei o meu compadre Ruben Amorim como treinador. As coisas não podiam ter corrido da melhor forma, sendo que o primeiro contacto com ele até correu da pior forma. Ele não aceitou a minha ida para o Casa Pia. Enviei-lhe uma mensagem a perguntar se ele não queria contar com o melhor lateral-esquerdo, médio ou central? Algo que ele precisasse. Ele respondeu-me logo algo como 'Mano, não vamos confundir amizade com trabalho. Estiveste numa cama de hospital em coma, há poucos meses. Já tens 33 anos, és um jogador caro para o Casa Pia e eu já tenho três laterais-esquerdos'. Ou seja, fechou-me as portas todas. Não havia forma de entrar ali. Respondi que não havia problema nenhum, desejei-lhe as melhores felicidades e disse-lhe que tinha a certeza absoluta que iria dar um grande treinador. Isso está à vista. Conheço-o desde os 9 anos… 

Uma semana e pouco depois, mandou-me mensagem a perguntar como eu estava, mas ali eu senti claramente que ele queria que fosse para lá. Claro que ele estava interessado em saber do meu estado, mas o contacto era mais numa de me querer lá, sem dar a parte fraca. Poucos dias depois, voltou-me a contactar a dizer 'Que se lixe, já me atravessei por ti, falei com o presidente e quero saber se queres vir para aqui'. Eu disse que queria. Os valores eram baixos…. O Casa Pia era uma equipa que não tinha dinheiro. Fez-me duas propostas, não aceitei, mas os valores foram subindo e aceitei à terceira. Disse-lhe 'Obrigado, não dá para subir mais, não é muito, mas pelo prazer de voltar a jogar e estar contigo, está fechado'.

Sente que essa resistência foi a maior vitória da sua carreira?

Claramente. Não foi a da minha carreira. Foi a vitória da minha vida. Para mim, sobreviver ao acidente passou por três milagres. Fiquei inanimado no chão durante 30 minutos. Disseram ainda que se me montassem na máquina e me levassem para o hospital, a meio do caminho já não teria vida. Tive também a infelicidade de ter uma septicemia. O relatório diz que não durava mais de cinco minutos ali no cadeirão porque estava a tremer por todo o lado, com dois cobertores, a delirar com a febre. Levaram-me de urgência para ser operado, onde tive uma paragem cardiorrespiratória. Foram três milagres em menos de um mês. Foi claramente a maior vitória da minha vida.

No primeiro jogo oficial que fiz [depois do acidente], contra o Louletano, parecia um bebé a chorar no fim. Ainda com algum receio do contacto, pedia nos treinos, quase por favor, para tentarem não chocar muito comigo. Era praticamente impossível, mas eu tinha medo. Estava muito frágil do lado esquerdo. Costelas, omoplata, clavícula, pulmão perfurado… A verdade é que não poderia ter corrido melhor. Sou muito grato. Tenho amor ao Casa Pia. Fui feliz lá e foi lá que dei a volta à minha vida.

"Secret Story"? Sem falsas humildades, quando me inscrevi, tinha a certeza absoluta que ia ser um dos escolhidos para ser concorrente.

Viajando para o entretenimento, o que o levou a entrar na mais recente edição da "Casa dos Segredos"?

Durante muitos anos, alguns amigos próximos foram sempre dizendo algo como 'Opá, tu tens de entrar naquilo. É a tua cara, tens estilo para aquilo e devias entrar'. Fui ouvindo e fiquei sempre com o bichinho. Desta vez decidi tentar. Sem falsas humildades, quando me inscrevi, tinha a certeza absoluta que ia ser um dos escolhidos para ser concorrente. Por estar ligado a muitas caras conhecidas, não só do futebol, bem como pela minha vida em si. Tinha essa curiosidade. Queria viver aquela experiência. Não sabia o que ia encontrar, não estudei nada porque nunca vi reality shows. O único, e não foi a tempo inteiro, foi o primeiro de todos, do Zé Maria, há 25 anos salvo erro. Não fui para ali da mesma forma que maior parte dos concorrentes. Alguns estudaram antes de entrar, outros copiaram ex-concorrentes e sabiam o que fazer e como fazer. Já eu fui às cegas. Eu não queria saber, até preparei a minha mala quando faltava uma hora para ir para o ponto de encontro. A minha mulher estava com mais stress do que eu, a preparar-me as coisas. Estava quase na hora e eu muito tranquilo.

Fui para ali para viver a experiência ao máximo. Não sabia como ia ser, como me ia comportar. Só pensava às vezes 'Será que eu tenho de ser desta ou de outra forma?', mas não queria estudar nada porque, ao chegar lá, as coisas poderiam ser completamente diferentes daquilo que eu teria planeado fazer. Ainda era pior. Nas primeiras duas semanas, fui muito bem visto porque era pacato e era um elemento agregador. É assim que sou cá fora. As amizades que eu fiz são as que quero manter. O único arrependimento foi não conseguir levar a minha avante porque tinha vários concorrentes a azucrinarem-me a cabeça. Diziam 'Tu não és assim, tens de falar e de dizer as coisas. Não podes deixar passar'. Fui no jogo deles e escorreguei. Mais do que alguma atitude que eu tenha tido lá dentro, foi deixar-me levar por esses comentários. No fundo, o que queriam eram que me afundasse. Algumas dessas pessoas ainda saíram antes de mim. Foram-me dizendo que, assim, passaria ao lado, seria a planta e que estaria sempre tudo bem. Também disse sempre que tenho um temperamento, muitas vezes, intempestivo. Sou impulsivo, deu para ver. 

Não sou de desejar mal a ninguém, mesmo em relação àqueles que não tive grande ligação lá dentro [da casa]. Não guardo rancores. Só quero que as pessoas sigam a vida delas, assim como eu sigo a minha. Para mim, acabou. Estive lá dois meses e pouco. Saí daquela porta e o programa acabou. Vi cá fora que a Marisa me desiludiu bastante, mas o programa, para mim, já acabou. Há pessoas que viveram muito tudo isto e chegam a roçar o ódio. Na verdade, tenho tido um feedback fantástico, juro. Ainda não tive uma única pessoa que viesse falar comigo a fazer má cara. Atrás do ecrã, já vi pessoas a falar mal e a dizer que eu nunca devia ter entrado. Não é que eu tenha de limpar a imagem, mas já tentei passar um bocadinho melhor aquilo que eu sou. Aquilo é um jogo. Quem quiser entender que lá dentro é tudo diferente e há uma maior pressão, tudo certo. Quem não quiser entender, também está tudo certo. A minha preocupação passa pelos meus, a minha família e o meu núcleo mais próximo. O resto não me tira o sono.

Notícias ao Minuto Bruno Simão deu a volta por cima e voltou ao mundo do futebol após um acidente que o deixou entre a vida e a morte, aos 32 anos.© Reprodução Instagram Bruno Simão  

"Estive entre a vida e a morte" era o seu segredo. Não temia que algum concorrente o reconhecesse dentro da casa por força do traumático acidente que sofreu?

É uma excelente questão. Fiquei surpreendido. Antes, já tinha ido a programas com Cristina Ferreira e Júlia Pinheiro e já tinha ido ao Canal 11. Quando fui aos castings, disseram-me que o segredo era impactante e também me questionaram isso, se eu não tinha medo que alguém me reconhecesse. Aí respondi 'Realmente têm razão'. Perguntaram-me se eu não tinha mais nada e foi aí que pensei na história de ser compadre de Ruben Amorim, uma figura histórica que está na berra, bem como na de ter sido colega de Cristiano Ronaldo na seleção. No entanto, para mim, eram coisas mais banais. Só que me disseram que para a maior parte das pessoas não era assim. Ficámos por aí. No dia em que foram buscar ao hotel para ir para a casa, pediram-me para abrir o segredo e era esse de estar entre a vida e a morte, quando eu já pensava que seria o do Ruben Amorim ou o do Cristiano Ronaldo. Tive essa surpresa. Efetivamente, poderia haver ali alguém que já me podia ter visto. A verdade é que não.

Houve uma altura em que a Inês ainda me deixou desconfortável ao olhar para uma cicatriz que eu tenho desde a operação. Eu nem sabia o que dizer e contei que parti as costelas, com algumas complicações à mistura. Aquilo lá passou… Quando cheguei à casa vi uma mota [pista], mas a parte de trás era cor de rosa e começaram a saber do acidente de mota do Dylan. A Mariana também andava de mota. Saiu ainda outra pista de uma carta do hospital e depois ouviram-se batimentos cardíacos pela casa. Era para mim, mas não sabia se havia outro concorrente com um segredo do género. Ainda se disse 'Houve aqui alguém que esteve às portas da morte'. A Ana Cristina ainda me chegou a abordar. A Marisa Susana também me perguntou se me tinha acontecido alguma coisa em campo. Jurei por tudo o que era mais sagrado que não. A minha forma de esconder foi falar sempre do segredo dos outros. Antes de eu sair, já andavam a dizer que aquilo da mota podia ser para mim. Se eu ficasse lá, possivelmente, acabaria por ser descoberto.

Foi alvo de duas sanções com direito a nomeação direta, mas a sua revolta ditou uma desistência após o segundo castigo da Voz. Arrepende-se?

Não me arrependo por dois motivos. Um porque efetivamente as saudades eram gigantes, das minhas filhas e da minha mulher. A minha filha fez quatro anos a meio de dezembro, essa era a minha preocupação e, assim, eu estive presente. Até isso foi um mal-entendido, dado que começaram a achar que eu tinha contrato, desde que entrei até diz 14. Cheguei a ter uma conversa com a Bruna em que lhe disse, ao pé da piscina, que mesmo que ficasse ali, iria embora na gala do dia 14. Se não fosse expulso, pedia-me para sair.

Quiseram pintar-me como mau por tudo e mais alguma coisa. A minha saída  aconteceu por sentir que o programa estava a ser conduzido de uma determinada formaAbdicava de ser finalista ou até mesmo vencedor de 250 mil euros para estar cá fora no aniversário de uma das suas filhas?

É aí que entra a segunda parte. Já estava a sentir há algum tempo a forma como o programa estava a ser conduzido. Pelas preferências, senti que não valia a pena lutar. Pensei 'Isto está feito, está controlado e já não vou ganhar'. Se não ia ganhar, sair em décimo, em nono ou em sexto, é exatamente o mesmo. Já não ia lucrar nada com aquilo. Já tinha feito o meu papel. Lá dentro só dá para perceber as coisas que se vão passando, as sanções que são para uns e não são para outros e as vezes que alguns vão sistematicamente ao confessionário [em emissões em direto]. O meu caso foi o mais flagrante. Só me lembro de ir três vezes ao confessionário. Numa desvendei o meu segredo, noutra fui com o Dylan para sermos quase enxovalhados com coisas ridículas e a terceira foi para sair. Só tive duas missões e apenas uma delas passou. Tive inúmeras situações engraçadas com toda a gente, tanto que até o Leandro, meu antagonista, reconheceu que eu era de arrancar sorrisos fáceis. Apenas passaram o lado de vilão. Eu não descarto coisas que disse, embora tenham extrapolado muito, como a situação da homofobia [com o Leandro], em que as pessoas tiram as ilações que querem.

Aquela situação de colocar um arco-íris na cama dele foi só para o irritar. Ele também irrita muito as pessoas, assim como o Pedro. Quis picá-lo a pensar que ia ficar fora de si, no dia em que invadimos o quarto deles. Podia fazer alguma porcaria que não lhe ficasse bem. Ele chegou a enfrentar-me e a fazer peito, à espera que eu tivesse uma reação que provocasse a minha expulsão. Eu nem sei se ele é homossexual ou não, mas lido muito bem com isso. Desde cedo, nunca tive problemas com isso. Para mim, é igual. A pessoa não deixa de ser o que é por gostar de um homem ou de uma mulher. Isso é super tranquilo. Quiseram pintar-me como mau por tudo e mais alguma coisa. A minha saída  aconteceu por sentir que o programa estava a ser conduzido de uma determinada forma. Cá fora, confirmei a 100% o que pensava lá dentro sobre quem é levado ao colo. Se não tinha a oportunidade de ganhar, estava mais do que na hora de sair. Ainda bem que o Dylan ouviu que estavam a chamar por mim lá fora [nas imediações da casa], que era a minha mulher, a minha irmã e mais duas amigas minhas. Saí e não me arrependo. Sinto-me feliz por sair na hora certa.

Imagina-se a entrar noutro reality show no futuro?

Tem de ser muito bem pensado. Não digo nunca, não faz parte de mim. Se fosse sair e entrar logo noutro, não, fora de questão. Se me convidassem para entrar daqui a um mês, por exemplo… Tenho de pensar muito. Caso volte a ser convidado, já vou com outra mentalidade. O 'mindset' já é diferente. Já estudei pessoalmente, sem ser em contexto de televisão. Raramente ligo a televisão para acompanhar, sou honesto. Nunca fui de ver reality shows e eu disse-o lá dentro. Não é porque entrei agora que passarei a papar os reality shows. Se não me meto a ver futebol, que é a minha paixão, durante uma tarde inteira, obviamente que não será um reality show.

Notícias ao Minuto Após ter abandonado o programa "Secret Story" por vontade própria, Bruno Simão avalia com bons olhos a possibilidade se  tornar comentador, com uma preferência pelo lado... desportivo.© Reprodução TVI  

Que oportunidades considera que esta participação no Secret Story lhe pode trazer, a nível pessoal e profissional?

Reconhecimento era algo que eu queria. É óbvio que entrei para ganhar o prémio final, mas queria que isto me abrisse portas porque tenho muita vontade de entrar na televisão, mais na parte de comentador. Gostava que fosse na vertente desportiva. Se não fosse, também poderia ser em contexto de reality show. Via com bons olhos. Tenho amigos atores e também gostava de algo ligado a novelas, apesar de já ter 40 anos. Na parte do futebol, o meu irmão já está no segundo nível de treinador e eu nunca tirei. Nem faz parte dos meus planos porque não me vejo como treinador de futebol. Sou um apaixonado por futebol. Gosto de jogos grandes, ver o meu Benfica, ver a seleção nacional e o meu irmão, principalmente. Não sou de acompanhar jogos entre Alverca e Tondela, por exemplo. Tenho estado a sofrer com o Manchester United, por estar lá o Ruben.

Se o meu irmão um dia se tornar treinador, aí vou fazer os cursos porque gostava de embarcar numa equipa técnica dele. Gostaria de ter os meus negócios à parte do futebol. A restauração encanta-me muito, assim como turismo rural. Em breve, vou estar num programa televisivo e gostava que me abrissem portas num canal desportivo. Era realmente o que eu mais queria. A vertente de treinador não me fascina tanto, mas a de diretor sim. Estive para ficar como team manager no Cascais, onde estive, que tem um projeto muito bom e aliciante. É um clube que vai dar que falar daqui a uns anos, tenho a certeza absoluta. O projeto e as pessoas que estão à frente são sérias e têm muito poder. Essa parte de diretor desportivo ou team manager, isso sim, eu adorava. Já fiz uma formação através do Sindicato e pode ser que um dia me dê o clique. Infelizmente, não foi para a frente no Cascais. Se tivesse ido, possivelmente seria isto que me via a fazer agora. Essa parte encanta-me muito mais do que o campo. Dirigir e organizar é algo que realmente me fascina.

Os seus amigos reconhecem-lhe características para se tornar um bom ator?

Eu morei com o Rodrigo Menezes, que infelizmente já morreu, durante oito meses. Eu contracenava com ele porque me pedia ajuda, quando trazia textos enquanto fazia novelas. Ele dizia-me 'Mano, tens jeito para isto. Devias apostar'. Sou amigo de alguns e dizem-me, inclusive em casa, que tenho jeito para isso. Gostava muito. Nunca fiz, apenas quando era miúdo, como figurante, por duas vezes. Era uma coisa super engraçada. Tenho consciência que é algo que está muito longe e não deverá acontecer. Quanto à parte de comentador, já estive na Sport TV mais do que uma vez, assim como no Canal 11, sendo algo que também me fascinaria.

O jogo do 'Prefere...?'

Prefere estar no entretenimento ou no desporto atualmente?

Essa é difícil, mas vou escolher o desporto.

Prefere ser reconhecido no futuro pelo que fez no desporto ou no entretenimento?

No futebol.

Preferia ganhar um troféu relevante como futebolista ou ganhar um reality show?

Ganhar no futebol, claramente. Tendo a oportunidade de ganhar um dia como diretor ou numa equipa técnica da minha mão, gostava muito mais do que um reality show, apesar do prémio ser bem grande.

Todas os meses o Desporto ao Minuto apresenta-lhe uma nova edição da rubrica 'Eu "show" de bola', em que se pretende perceber melhor o que faz alguém 'viajar' do mundo desportivo para a arte do entretenimento.

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Ângelo Girão já girou entre stick e novela: "Desafios novos excitam-me"

Ângelo Girão é o convidado da 6.ª edição da rubrica mensal 'Eu "show" de bola' do Desporto ao Minuto, em que se pretende perceber melhor o que faz alguém 'viajar' do mundo desportivo para a arte do entretenimento. Miguel Simões | 07:47 - 02/12/2025

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