"Chega tem padrão que permite perceber que não vai respeitar democracia"

Dezembro 4, 2025 - 12:00
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"Chega tem padrão que permite perceber que não vai respeitar democracia"

Num momento em que a polarização, a desinformação, o populismo e a crise de confiança nas instituições abana a estabilidade dos regimes democráticos urge discutir o futuro do sistema, a possibilidade cada vez mais real da chegada ao poder da direita radical e os perigos que isso representa para Portugal (e não só).

 

Consciente da necessidade de fomentar essas "discussões", o jornalista David Dinis, que tem uma longa carreira na comunicação social e é atualmente diretor-adjunto do semanário Expresso e comentador na SIC Notícias, decidiu fazer a sua parte e lançar um livro que leva a viajar no tempo até ao hipotético dia em que o Chega, pela mão do líder, André Ventura, atinge o poder.

"Como proteger a Democracia", lançado pela Ideias de Ler, convida-nos a refletir sobre esse cenário. A perceber as consequências que pode ter na nossa vida. A compreender que "o Chega não é um partido como os outros". Mas também a pensar o presente. Provoca-nos. Não só a nível das instituições, como enquanto cidadãos. O que é possível ainda fazer para "cuidar do futuro de Portugal"? Pela democracia, pela sociedade? Por nós enquanto seres individuais?

Em entrevista ao Notícias ao Minuto, o autor, David Dinis, partilha algumas das suas ideias.

Lançou recentemente o livro "Como proteger a democracia", onde antecipa a chegada ao poder da direita radical. Acredita que é inevitável esse destino?

Não acho que seja inevitável e, a acontecer, não tem de ser nas próximas eleições. Procurei dados em sondagens, inquéritos de opinião diferentes, de empresas diferentes, mas também nos estudos pós-eleitorais sucessivos das últimas eleições, que nos dão dados muito sofinos, muito precisos sobre a evolução do eleitorado do Chega. E a conclusão a que chego, olhando para esses dados, é que hoje já não só pode acontecer, como já não está na mão dos outros partidos evitar. Ou seja, um mero acaso, um acontecimento diferente do expectável, uma crise internacional, pode muito facilmente levar a que o Chega ganhe. De resto, escrevi isto ainda antes de conhecer as últimas sondagens que foram saindo e que, na esmagadora maioria, confirmam que neste momento o Chega já está em empate técnico com os outros dois partidos, quer com a AD, quer com o Partido Socialista, o que, aparentemente, confirma que a evolução da intenção de voto no Chega é muito mais consubstanciada do que aquilo que nós antevíamos.

Nós estamos a falar de ditadores de fato e gravata. Não são os ditadores com camuflados militares que se apresentavam para usar a força. E, atenção, estamos a falar de partidos políticos que são eleitos legitimamente

O que contribuiu para o crescimento da direita radical em Portugal? É um fenómeno que está a acontecer também noutros países, mas temos uma ditadura recente, acha que Portugal já não se lembra desses tempos ou deseja mesmo o 'renascimento' de Salazar?

Há várias camadas. Para tentar responder de forma simples a essa pergunta, que é uma pergunta difícil, a primeira coisa que é preciso dizer é que não estamos a falar de uma ditadura como as muitas que aconteceram durante o século XX no mundo todo. Estamos a falar de um caminho para autocracia, ou se quisermos termos mais simplistas, um caminho para uma ditadura, mas que é feito sem golpe militar, sem posição total pela força, sem a agressividade evidente que acontecia em ditaduras anteriores. Há alguns livros que falam disso. Nós estamos a falar de ditadores de fato e gravata. Não são os ditadores com camuflados militares que se apresentavam para usar a força. E, atenção, estamos a falar de partidos políticos que são eleitos legitimamente. Esta é a primeira parte da resposta. A segunda é, porventura, um bocadinho mais difícil. Primeiro, é importante lembrar que a nossa ditadura já acabou vai fazer 52 anos. E se nós pensarmos que a maioria da população residente com capacidade de voto não viveu essa ditadura isso já ajuda a explicar porque é que, de certa forma, os perigos que eram muito evidentes há 20 ou 30 anos, hoje não são tão pressentidos, não são tão visíveis, não são tão fáceis.

Em segundo lugar, uma vez mais, estes líderes políticos começam o seu percurso cumprindo as regras democráticas. Quer dizer, até hoje o Chega não incumpriu regras. O que o livro alega é uma coisa diferente, é que eles chegando ao poder, incumprem-nas com enorme facilidade. E, para isso, não posso usar o exemplo do Chega. Este partido ainda não chegou ao Governo. O que cruzo é o que o Chega propõe, o discurso político do Chega, o que André Ventura vai dizendo, com o padrão que é facilmente percetível e comprovável de partidos com o mesmo posicionamento político, populistas, de direita radical, quer nos Estados Unidos, quer na Polónia, quer na Hungria, quer, em certa medida também, na Itália, de Giorgia Meloni. Consigo fechar a resposta dizendo o seguinte: com estes elementos todos, e havendo muitas origens para o crescimento do populismo em Portugal, como noutros países, nada se explica por um único motivo. Há uma série de motivos que explicam porque é que pessoas muito diferentes umas das outras, algumas que acharíamos à partida muito improvável que pudessem votar ou apoiar um partido como o Chega, efetivamente hoje apoiam. São partidos de plasticina, muito moldáveis ao contexto que vivemos, ou aos contextos que vamos vivendo, que se vão adaptando com grande facilidade e apresentando uma espécie de menu de ideias-chave, de propostas de ação e de utilização de frustrações que podem caber em muitos eleitorados diferentes.

Passou por vários órgãos de comunicação social e é agora diretor-adjunto de um dos maiores jornais do país - o Expresso -, por isso, tem uma vasta experiência na área. De que forma é que a comunicação social contribui para este desfecho? Acha que se pensa nas consequências, por exemplo, de levar a estúdio de televisão quase todos os dias líderes de partidos radicais?

Isto teve vários tempos e quando começou acho que a responsabilidade é muito descentralizada. Havia muita curiosidade, o que é novo é normalmente notícia, e é, faz parte. Mas também acho que houve alguma incapacidade de prever o quão rápido poderia ser este crescimento. As notícias do Chega tinham muitos leitores e muita gente, sobretudo os órgãos que não baseiam o seu modelo de negócio em subscrições, acabava muito facilmente por ceder a essa tentação. Acho que houve alguma consciencialização mas, entretanto, o que aconteceu é que o Chega cresceu de tal maneira que se conseguiu posicionar como inevitável na discussão política. Ou seja, hoje é muito mais difícil dizer 'não'. Se calhar, devemos medir quantas vezes é que o Chega aparece. O problema é que os incentivos continuam.

Acho que a questão hoje coloca-se sobretudo mais ao nível da televisão do que propriamente à imprensa escrita. E ao nível da televisão os incentivos continuam do mesmo lado. Hoje há uma mistura de fatores. André Vetura dá audiência e as televisões precisam de rentabilizar, os negócios estão frágeis e esse fator existe. E também existe uma espécie de fator de desculpabilização de o partido estar institucionalizado, ser o segundo maior partido do Parlamento, de ser inevitável. Por fim, também há um certo processo de desculpabilização por - tendo este nível de votação - também ter um grande nível de público-alvo, e as televisões encontram aí um motivo: nós também temos de fazer televisão para este público-alvo, não pode ser só para os outros, para o público-alvo dos outros partidos.

Há, portanto, uma série de argumentos...

Sim, há uma série de argumentos que são hoje invocados, sendo certo que - para não fugir à pergunta - continua a ser excessivo. André Ventura há duas eleições que é a personagem política com mais tempo de visualização em campanha eleitoral no que diz respeito a televisões. Portanto, acho que continuamos sem efetivamente medir as coisas. E isto não é só sobre o André Ventura. Não é justo. Não é justo para com os outros líderes partidários, por exemplo.

O que é que podemos fazer então para cuidar do futuro do país, para nos prepararmos para este eventual cenário?

Desde logo, começar a discutir. Fazer essa discussão sobre os meios de comunicação social, mas também fazer essa discussão sobre o que é que para cada um de nós pode implicar o dia em que Chega chegar ao poder legitimamente. Porque, ouve-se muito nesta fase, ouve-se muito nas ruas, entre os nossos amigos, familiares, pessoas que conhecemos, a conversa de "os outros também não fazem nada", ou "é igual eleger o Chega ou outros partidos", ou mesmo "se eles forem também se prova que eles não conseguem resolver e depois dura pouco tempo". Isto são estratégias de fuga. E não vale a pena fugir ao evidente: o Chega não é um partido como todos os outros. As consequências de eleger André Ventura e o Chega, ainda que totalmente legítima a sua eleição para presidir um Governo, para chefiar um Governo, não terão as mesmas consequências do que eleger qualquer outro partido da Assembleia da República. Nem a Iniciativa Liberal, nem o Bloco de Esquerda, nem o PCP.

Porquê?

Porque o Chega, pelo discurso e pelas propostas - porque fala de rutura sistematicamente e dá exemplos dessas ruturas - e pelo padrão que existe em partidos parecidos lá fora, assume um comportamento que nos permite, com grande grau de segurança, perceber que não vai respeitar as regras dos procedimentos que existem na nossa democracia e que pode, com isso, colocar um sentimento de medo naqueles que não o elegeram. E atenção, numa democracia normal é evidente que há vencedores e vencidos e que os eleitores dos vencidos ficam sempre desiludidos com a eleição. Mas têm sempre a legítima expectativa de que, no limite de quatro anos depois, outro Governo poderá vir, de outra cor, mais próxima da sua, e que durante esses quatro anos os seus direitos são respeitados. Ora, não é isso que podemos antever, ou há pelo menos riscos verdadeiros, factuais, de que isso não aconteça se o Chega for eleito.

Todos nós temos um pequeno papel em democracia de cuidar dela. Não é só um direito, é também um dever nosso. As democracias não se autopreservam, precisam que nós cuidemos delas

E é isso mesmo que simula no seu livro, o atropelo de algumas regras democráticas. O relato é tão real que chega a causar ansiedade. Não é irónico que pelo voto democrático o poder possa cair nas mãos de quem pretende abusar dele? Acha que quem vota no Chega tem noção do que poderá vir aí?

Creio que não, ou temo que não. Acho que não existe uma consciência plena do que é que se segue, do que é que acontece no dia a seguir, e foi esse o motivo que me levou a querer escrever este livro. Para nós podermos tomar decisões conscientes, precisamos de saber o mais possível o que é que acontece a seguir. Precisamos de perceber as consequências para os outros, para os que não pensam da mesma maneira do que nós, mas também para nós. E só a partir daí é que podemos agir. Agir preventivamente. Não é só escolher bem e conscientemente o seu voto, ainda que acabe por ser na direita radical. É também agir preventivamente. É conversar, é mobilizar conversas, é perceber melhor, é investigar, é fazer grupos, é fazer associações, é fazer grupos de discussão sobre livros, é fazer a discussão em comunidade, nem que seja em família, nas universidades, nos nossos postos trabalhos. Todos nós temos um pequeno papel em democracia de cuidar dela. Não é só um direito, é também um dever nosso. As democracias não se autopreservam, precisam que nós cuidemos delas. E este é o meu pequeno contributo nesta missão com que eu acho que é comum.

E quais são os principais perigos de um Governo de direita radical? Transformar-nos numa autocracia?

O final que estamos a ver nos Estados Unidos hoje e foi exatamente o que aconteceu nos oito anos de poder populista na Polónia e nos quase 12 anos que já vamos de poder populista também na Hungria de Viktor Orbán. Agora, o que é importante é nós percebermos que isto não é só teoria. Ou seja, aquilo que estou, que tento escrever aqui [no livro "Como Proteger a Democracia"] é um conjunto de circunstâncias que levam a que cada um de nós possa sentir na pele as consequências dessa eleição. Mesmo que não pareça e mesmo que, no limite, tenhamos votado em André Ventura. Para dar exemplos muito práticos, coloque-se na pele de um apoiante de André Ventura. Os apoiantes de André Ventura não vivem numa bolha, vivem numa sociedade. E têm filhos, irmãos, amigos, têm maridos ou mulheres. Imagine que um deles se opõe ao governo de André Ventura. Basta que um deles se oponha para que essa pessoa perceba muito perto de si o grau de ameaça ou de risco que um partido como este pode colocar a alguém. Imagine que um amigo dessa pessoa, desse eleitor de André Ventura é imigrante. Ou que pertence a uma minoria sexual. Ou que ele é juiz e que, por acaso, esse juiz chegou a ter nas mãos um caso relacionado com um membro do Chega e que julgou, condenou esse membro do Chega. Essas pessoas vão sentir o impacto dessa mudança.

O que quero dizer é que um comunista, um eleitor do PCP, não pode ficar descansado quando André Ventura diz que vai acabar, vai limpar os nomes das ruas que dizem Álvaro Cunhal. Não pode ficar [descansado] porque se sente ameaçado. Não é livre na sua opção política. E posso dizê-lo porque não sou um eleitor do PCP. Um advogado que tenha de representar alguém que está a ser acusado pelo Estado, liderado por André Ventura, não se sentirá livre para fazer aquela defesa, porque sabe que provavelmente, enquanto o Governo for de André Ventura, nunca mais vai poder representar o Estado como advogado. Estas consequências acontecem no dia a dia. Um manifestante terá muito mais dificuldade em ir para rua para protestar contra uma medida do Governo, porque sabe que pode ser identificado e pode temer que existam consequências por isso. E não estou a dizer nada polarizando em André Ventura. O que estou a dizer é que isto já está a acontecer nos Estados Unidos. Isto acontece na Hungria. Isto aconteceu na Polónia e é bom que levemos isto a sério.

Por fim, acha que ainda vamos a tempo de proteger a nossa democracia?

Ainda vamos a tempo. Vamos sempre a tempo porque, primeiro, isto ainda não aconteceu. Ainda é um cenário ficcionado na introdução do livro e desenvolvido pelo livro fora. Ainda é um cenário e enquanto é um cenário temos margem de manobra para algumas coisas. Temos margem de manobra para estarmos aqui a conversar sobre isto. Também temos margem de manobra no Parlamento para agir e proteger nas regras, nas nossas leis, na Constituição, o dia em que isto venha a acontecer de maneira a que o impacto seja menor. Temos muito tempo ainda para discutir até esse dia chegar. Infelizmente, a partir desse dia só teremos tempo para nos protegermos a nós individualmente e para lutar por que alguma normalidade possa ser reposta.

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